Analisado no Nintendo Switch 2
No universo dos jogos baseados em Star Wars, já tivermos tempos de seca e de fartura, passando de clássicos como Knight of the Old Republic, Republic Commando e Rogue Squadron até uma dezena de títulos bem medianos. Mas Star Wars Outlaws chega como o sonho realizado de quem sempre quis mergulhar numa galáxia distante não pelo olhar dos poderosos Jedi, mas sim pelos espertos, persistentes e, muitas vezes, azarados que circulam entre os confins da criminalidade e da sobrevivência. Depois de chegar para PlayStation, Xbox e PC, agora, com seu lançamento para o Switch 2, e trazendo a tiracolo, todas as expansões, patches e conteúdo adicional, esta experiência finalmente pode ser carregada para qualquer lugar, redefinindo as expectativas de um grande AAA da Ubisoft rodando no mais novo portátil da Nintendo.
Mas afinal: o game vale tanto no Switch 2 quanto nos consoles mais potentes? O que ganha e, principalmente, o que se perde nessa versão? Espero poder tirar todas essas dúvidas para você.
Antes, vamos falar um pouco da história, até porque já faz mais de 1 ano que o Thiago Richeliê fez o review no PlayStation 5 e muita gente nem se lembra mais. Desde a primeira cena, Outlaws já se propõe a ser diferente. Esquece a ideia de ser um Jedi, Sith ou “o escolhido”. Você é Kay Vess, uma ladra atrapalhada, mas que é a perfeita representação do sujeito comum lutando para existir numa galáxia cheia de superpoderosos. A narrativa se passa em um momento de fragilidade do Império, pós-destruição da primeira Estrela da Morte, quando os sindicatos do crime veem sua chance de prosperar.
Como você, fá de Star Wars já pode deduzir, é um período nada explorado nos jogos, e por isso, pelo menos para mim, fascinante. Um belo trabalho da Massive Entertainment aproveitando cada brecha deixada pelos filmes para colocar o jogador em situações em que cada pequeno ganho custa caro e nada é garantido. Ou seja, trocando em miúdos, é a versão mais “vida real” já feita de Star Wars, onde ninguém está protegido por poderes mágicos ou ultra galácticos.
Kay Vess tem carisma e vulnerabilidade. Nem de longe ela lembra Han Solo, mas sim alguém com histórias de abandono, fracassos e uma vontade de continuar tentando, ainda que o universo só jogua contra. O elenco secundário também desempenha um bom papel: o droide ND-5 é sóbrio, com tiradas precisas; Nix, a mascote alienígena, traz leveza e estratégia; e os vilões e NPCs que transitam entre amizade e traição, colaboram para reforçar o tom amargo e autêntico do roteiro.
Uma das grandes sacadas é que as interações (em cutscenes ou diálogos) nunca soam forçadas. Há humor, tristeza, esperança, e uma dose de dureza que, apesar da ficção científica elevada, conecta com qualquer um que já se sentiu-se azarado no mundo real.
Uma das críticas eternas aos jogos da Ubisoft é o excesso de conteúdo repetitivo e mapas superdimensionados. Outlaws foge em partes desse modelo. A Massive Entertainment optou por construir ambientes amplos, mas não tão imensos: são mapas bem planejados, aglomerados densos, hubs vivos, ruas escuras e, claro, uma dose de planetas emblemáticos como Mos Eisley, associado pela primeira vez a esse nível de detalhe em um game. Cada região oferece sua cultura, regras e problemáticas — nunca parece só uma “troca de skin” como em outros jogos da Ubi.
Esse formato reduzido causa dois tipos de impacto: mantém o jogador engajado, sem precisar andar longas distâncias só para completar uma quest, mas, ainda assim, traz aquela impressão de mundão aberto onde oportunidades, e ameaças, espreitam em cada beco. Quase sempre há segredos, missões paralelas, colecionáveis e pequenas histórias escondidas para descobrir — e cada uma traz um pouco de lore que vai aumentando ainda mais sua imersão na galáxia.
O grande diferencial, porém, é o sistema de reputação e escolha. Diferente de RPGs tradicionais, onde “escolhas morais” são frequentemente superficiais, aqui suas ações afetam mesmo o gameplay. Trapaceie uma gangue, ferre uma facção ou falhe grotescamente em determinada sequência: missões podem se tornar quase impossíveis, surgem emboscadas de punição, passagens antes seguras ficam repletas de guardas hostis e aliados podem se recusar a te ajudar. É pura consequência, recompensando experimentação e planejamento cuidadoso.
Em outros momentos, vender um dado objeto para Hutts pode render créditos, mas prejudica sua relação com o Crimson Dawn; ser pego espalha boatos e pode impedir acesso fácil a mercadores em determinado planeta. A sensação de que pequenas decisões importam para o resultado faz o mundo parecer mais injusto, como é na vida real.
A jogabilidade mistura três sistemas: exploração, stealth e combate aberto. O jogador pode abordar boa parte das missões com discrição, principalmente utilizando a Nix, sua mascote, para distrair inimigos, buscar ferramentas e ativar cavernas e armadilhas. O stealth é recompensador, embora nem sempre a IA dos inimigos brilhe: por vezes, abusar dos mapas e rotas de fuga é a melhor forma de sobreviver.
No combate, a arma básica de Kay é o blaster , totalmente customizável por módulos e upgrades. Dependendo do tipo de inimigo, usar dissipadores de energia, tiros iônicos ou granadas pode virar o jogo no calor do combate. Mandar Nix buscar armas caídas, sabotar alarmes ou explodir tambores adiciona aquela pitada de estratégia, com controles fáceis de usar até no modo portátil.
Aquela fórmula da Ubisoft de pegar missões, completar objetivos, avançar história ainda está presente, mas tenho que ser sincero que Outlaws se esforça para dar um charme a mais nas repetição com variações narrativas, desafios dinâmicos e cenários sempre em transformação.
Não tem Star Wars sem naves e combates espaciais e Outlaws entrega uma versão sóbria desse clássico do universo expandido. Você voa pelo espaço, faz viagens entre planetas, enfrenta caçadores de recompensas, se envolve em perseguições e até explora estações abandonadas.
O combate espacial, realizada com a nave Trailblazer, é funcional, mas nunca é o show do jogo. Os controles são menos fluidos do que se encontra em títulos totalmente focados nisso (como Rogue Squadron ou Star Wars Squadrons), mas cumprem o seu papel quando a tensão exige. Explorar, pegar atalhos pelo hiperespaço, participar de pequenos bloqueios imperiais ou se esquivar de caças inimigos compõe uma parte saborosa, mas não obrigatória da experiência. Quem não tem muita paciência pode passar mais tempo em solo, já que a porção “pilotagem” raramente é essencial para o núcleo das missões primárias.
Bom, sei que era a partir daqui que todos queria saber e vou falar sem rodeios: levar Outlaws para o Switch 2 era uma tarefa que eu achava quase maluca. Um mundo aberto, múltiplos sistemas, narrativa rica e ótimos gráficos em um hardware ainda limitado frente aos concorrentes não parecia uma boa ideia.
Mas foi. Lógico que se você fizer várias concessões. Não espere ter um resultado de ponta, mas ficou bem longe de ficar ruim. As escolhas foram dosadas e saiba que tudo ficou jogável e bem bonito, com direito a ray tracing. No modo portátil, o jogo corre limpo, sem engasgos e ficou ótimo na telinha pequena. Na tela grande, apesar de DLSS que coloca a imagem em 4k caso tenha uma TV que suporte, ali você vai reparar em problemas técnicos que as vezes incomodam, mas não prejudica a jogatina.
Mas apesar de sinceramente o resultado ser surpreendente em muitos aspectos, há coisas que para mim estão bem claras. Existe sim downgrades nos gráficos. Há texturas menos definidas, uma resolução mais baixa, um serrilhado perceptível em diversos momentos, pop-in em vegetação e objetos, além de alguns bugs visuais como painéis dos veículos pixelados. Quem coloca o Switch 2 lado a lado com PC, PS5 ou Xbox Series S/X, como eu fiz, sente que existe uma diferença de clareza e polimento.
Mas calma. No entanto, a experiência nunca deixa de ser jogável, e está muito longe da categoria de porte ruim. Os 30 fps são sólidos no modo portátil em 720p, com raras quedas mesmo nas áreas mais populosas ou quando a vida da cidade atinge níveis altos de NPCs e veículos. No dock, alcança o 4K, mas com upscale, com algumas reduções de qualidade para manter fluidez. Em cidades densas, ainda assim, mantém o ritmo sem crashes ou bugs graves, um feito louvável para o que o Nintendo Switch 2 consegue entregar. Ahhh, O que falar então do ray tracing que está lá, tanto no modo dock quanto no portátil? Com certeza é um grande ponto para o jogo
A maior vitória? O jogo inteiro está aqui, e com todos os DLCs, sem cortes. O save cross-platform com outras versões (caso você já tenha começado em outro console) permite continuar sua jornada sem dores. Jogar Outlaws numa tela menor, sempre que quiser, simplesmente não era uma esperança até pouco tempo atrás.
Mesmo sacrificando o visual, o universo de Outlaws não perde o impacto sensorial. A trilha sonora é exemplar, misturando timbres clássicos de Star Wars com batidas eletrônicas, melodias sombrias e camadas que pontuam tanto os momentos de ação quanto os de introspecção. Os efeitos sonoros, desde o tiro dos blasters até as multidões em cantinas, ampliam a atmosfera, tornando até tarefas simples, como andar pelo mercado de um pequeno planeta, experiências que evocam os filmes.
A dublagem é de alto nível, com diálogos variados, performances carismáticas e localização completa para o português, o que garante que nada “se perca na tradução” e a experiência siga fluída, mesmo para os que não dominam o inglês. Aqui um detalhe. Você tem que baixar o áudio em português.
A concorrência interna do Switch 2 é pesada, especialmente com títulos próprios da Nintendo que naturalmente tiram mais do hardware (como o mais recente Mario Kart ou Donkey Kong). Se comparado lado a lado, Outlaws parece menos impressionante graficamente. Mas, por outro lado, nenhum deles oferece uma experiência de mundo aberto com uma história Star Wars, um roteiro adulto e temas de sobrevivência como Outlaws.
Ainda, dado o histórico de portes ruins de alguns third parties, é impossível dizer que Outlaws decepciona. Ele entrega o prometido, funcionando como deveria e garantindo ao fanático por Star Wars uma experiência inédita no ecossistema Nintendo.
Este Star Wars é para você?
A resposta depende de como você encara suas prioridades. Se visual de ponta e fidelidade gráfica são intransigíveis, talvez jogar no Switch 2 cause um certo incômodo. Mas, para quem se liga na liberdade e na possibilidade de jogar em qualquer lugar, Outlaws é uma das aventuras mais ambiciosas já adaptadas ao novo hardware da Nintendo até agora.
Quem nunca jogou antes ou tem a chance de recomeçar do zero, vai se perder por horas na trama, entre jogatinas rápidas ou sessões longas de exploração. Aqueles que curtem carregar save entre plataformas, aproveitar DLCs e mergulhar em um universo expandido, vão amar com certeza, seja aqui ou em uma galáxia distante.
