Ghost of Yōtei – A vingança elevada a outro patamar | Análise

O espírito da vingança encontra liberdade máxima em um dos mundos abertos mais belos e imersivos do PS5.

Analisado no PS5 Pro


Ao ligar Ghost of Yōtei pela primeira vez, fica clara a ousadia e a ambição da Sucker Punch em refinar e evoluir tudo que Ghost of Tsushima tinha de bom e arrumar os erros que apresentou anos atrás. Mais do que uma simples sequência, este é um jogo que redefine expectativas, inclusive as minhas, sobre como uma história de vingança pode ser experimentada em um universo aberto. Já no prólogo, o peso da narrativa e a imersão evocam sensações de cinema, transportando o jogador para o lendário Japão do século XVII com uma naturalidade que surpreende até os mais exigentes fãs do gênero.

Logo nas cenas iniciais, a diferença de tom se faz sentir. Onde Ghost of Tsushima apostava na tentativa de recapturar a pátria roubada e em certos dilemas morais do protagonista Jin, aqui temos Atsu, uma mercenária errante cuja vida foi devastada pelo grupo conhecido como Os Seis de Yotei. Como em um bom começo de um filme, presenciamos um dos membros desse grupo encontrar seu fim em uma sequência noturna envolta em chamas, enquanto a casa de Atsu arde e a vingança se cristaliza como seu único norte. A história se compromete rapidamente. Não há rodeios: o desejo de justiça está explícito, e o empurrão para Ezo, a nova e fascinante região do jogo, é feito com um potencial narrativo poucas vezes visto.

Atsu não é uma heroína padrão como estamos acostumados a ver. Consumida pela sede de vingança, ela é ao mesmo tempo resiliente e vulnerável, moldada pela dor da perda e pela busca incessante de redenção pessoal. Cada encontro ao longo do caminho, de aliados carismáticos a inimigos bem construídos, desafia sua visão de mundo e amplia o debate moral sobre justiça, perdão e redenção. A história, tomada de tamanha intensidade emocional e recheadas de belos confrontos, faz Ghost of Yōtei ultrapassar o óbvio ao criar dilemas e situações em que nem toda punição se justifica.

Exemplo disso é que muitas vezes mesmo cruzando com pessoas que possam ter um histórico de crimes, poderemos ter motivações profundas, empatia e compaixão em um universo regido por violência. O roteiro entende que há espaço para nuances: pessoas têm histórias, tragédias acontecem, e o preto no branco raramente existe.

Se Tsushima já era fascinante, a Sucker Punch dobrou a aposta com Ezo. O novo cenário funciona quase como um personagem à parte, repleto de paisagens épicas, povoados cheio de vida, grandes florestas e relevo dominante graças ao Monte Yōtei, um vulcão majestoso no horizonte. Ezo brinda o jogador com um design de mundo aberto que valoriza a exploração orgânica, dispensando minimapas genéricos em troca de pistas visuais, como árvores exóticas, trilhas marcadas pela neve, pássaros e animais selvagens que sugerem segredos e missões escondidas.

E aí está um dos pontos altos do jogo. Essa filosofia faz com que cada passo no mapa seja um convite à descoberta: seja perseguindo uma coluna de fumaça ao longe, seja seguindo um urso até um local inesperado, ou simplesmente se deixando levar por instintos e curiosidade. A trilha sonora, com seus temas ora discretos e contemplativos, ora intensos em combates épicos, reforça a imersão, e contribui para uma atmosfera carregada, mas nunca sufocante.

As atividades secundárias foram integradas de maneira mais sutil desta vez, diferente de Ghost of Tsushima. Não há sensação de grind excessivo, pois mesmo os desafios não obrigatórios, de duelos a lendas urbanas inspiradas pelo folclore japonês, conectam-se tematicamente à jornada de Atsu. Cada mito, cada tarefa aparentemente corriqueiras, oferece contexto ou recompensa significativa, seja em itens, desenvolvimento de personagem ou pura experiência narrativa.

O crescimento de Atsu ao longo do jogo é sentido tanto nas mecânicas quanto na personalidade. Ela começa limitada em recursos e habilidades e, à medida que realiza pequenas tarefas, recebe treinamento em armas, aprende habilidades de combate e até desenvolve sua capacidade interpessoal com moradores, aliados e inimigos ocasionais.

Um dos grandes trunfos do jogo é como cada aprimoramento tem propósito. Não basta acumular XP e desbloquear tudo por tabela. Guardem bem isso: cada novo movimento adquirido faz diferença real, seja em combate direto, explosivo, ou em situações de stealth e infiltração. Os amuletos e padrões de armas, por exemplo, não servem apenas para customizar o visual, mas realmente definem estilos de jogo, desde uma abordagem mais agressiva até opções focadas na furtividade ou defesa.

A relação de Atsu com os aliados (alguns recorrentes, outros que serão grandes surpresas) enriquece a narrativa e afeta opções de resolução dos conflitos. O sistema de diálogos, sem necessariamente ser pesado como em RPGs tradicionais, permite influenciar pequenas histórias e algumas decisões importantes, aprofundando o elemento replay e a sensação de você estar vivendo a personagem.

O sistema de combate sofreu mudanças profundas e inteligentes, abandonando o modelo de “posturas” de Tsushima para oferecer cinco armas brancas principais, cada uma letal em seu contexto. A katana segue sendo a mais usada para a maioria das situações, mas a odachi brilha quando estamos cercados por vários inimigos, enquanto a yari dá alcance, o kusarigama introduz estratégia com controle de área, e a espada curta prioriza velocidade e furtividade.

Mas não se limitam a só isso não. Armas de longo alcance, como arcos longos, arcos curtos e o moderno rifle que agregam camadas adicionais de escolha tática, especialmente em duelos mais complexos ou em emboscadas contra grupos numerosos. Bombas, dispositivos de fumaça e até a possibilidade de jogar óleo quente sobre inimigos ampliam o repertório de criatividade na hora de atacar ou improvisar.

Outro ponto novo bem legal durante o combate está no uso de armas descartáveis: no calor do combate, certas armas do inimigo podem ser “roubadas” e usadas contra ele. Também há movimentos contextuais, como desarmar oponente para pegar uma lança caída e atacar outro adversário na sequência. As animações são brutais, ágeis, muito cinematográficas, ficando claro a inspiração em duelos históricos de filmes japoneses.

O combate brilha em duelos contra os membros dos Seis de Yotei: cada batalha é cuidadosamente coreografada para garantir não apenas um desafio mecânico, mas a intensidade emocional digna daquela rivalidade. É bom mencionar que o jogo sabe dosar o ritmo: há momentos para enfrentar pequenos inimigos e outros onde a tensão cresce até o momento de um duelo grandioso contra um chefão. O resultado é sempre satisfatório, digno de querer repetir mais uma vez, principalmente para os fãs do gênero.

Em termos de personalização, Ghost of Yōtei é foi muito bem construído. Além das múltiplas opções de kits de armas, visuais de armaduras, cores, bandanas, e acessórios, o sistema de charms permite compor combinações profundas, que moldam ataques, defesas, resistência e até interação com o cenário (como resistir ao frio de Ezo em missões noturnas nas montanhas). Atsu se destaca dos demais jogadores porque pode ser inteiramente customizada: dificilmente seu personagem será idêntico ao de outra pessoa, algo raro em franquias do gênero.

O impacto visual é impressionante: Ezo rivaliza com o que o PS5 tem de melhor até hoje. O Monte Yotei domina cada pôr do sol, cada nevasca, servindo de pano de fundo e de orientação natural. A variedade de biomas (campos floridos, vilarejos antigos, florestas densas e áreas vulcânicas) impede monotonia mesmo após dezenas de horas de exploração livre.

A tecnologia se faz presente de maneira sutil e funcional: o aproveitamento total do DualSense é louvável, com respostas hápticas profundas, uso inteligente do touchpad para gestos (como pintar com sumi-e, tocar shamisen (um instrumento musical), executar reverências, guardar e sacar a katana) e minijogos táteis em ações de forja e culinária.

Três modos especiais enriquecem a experiência visual e musical: o Modo Kurosawa traz cinemática preto e branco em homenagem ao cineasta; o Modo Miike adiciona camadas extras de violência e close-ups estilizados; o Modo Watanabe, uma mistura trilha lo-fi para momentos contemplativos. Todos podem ser alternados em tempo real, mudando drasticamente o tom da aventura.

Um mérito inegável é a capacidade do jogo em abolir, quase por completo, a caça a ícones de minimapa. Não há aquela sensação de “checklist” que tanto assola títulos de mundo aberto. Em Ghost of Yōtei, a estrutura incentiva a atenção ao detalhe: uma trilha de folhas diferentes numa encosta, um bambuzal torto, uma casa com fumaça subindo devagar ao longe, tudo são convites a perder um tempinho e investigar.

Além disso, o sistema de “névoa de guerra” oculta partes do mapa até o jogador realmente desbravar fisicamente a região, aumentando ainda mais a recompensa no ato da descoberta. As Tocas das Raposas e outros mistérios clássicos retornam, mas agora são mais bem integrados ao mundo, muitas vezes servindo de atalhos para lendas ou histórias secundárias.

A rotina de exploração e missões secundárias raramente são repetitivas, pois o game alterna, de modo muito bem-feito, entre duelos, missões de infiltração, caçadas a animais lendários, eventos dinâmicos e pequenas histórias humanas, mas quase sempre comoventes. O sentimento de que “sempre há algo novo ao virar a próxima curva” cai como uma luva neste game.

Apesar de tantos acertos, Ghost of Yōtei herda algumas limitações do seu antecessor. O sistema de coleta de materiais, embora menos intrusivo, ainda pode se tornar repetitivo para quem busca maximizar todas as armaduras e armas. Itens colecionáveis estão por toda a parte, mas nem sempre a recompensa é à altura do esforço. Certos sistemas, como crafting no acampamento e gerenciamento do “Wolf Pack” (acampamentos e vendedores), acabam subutilizados, especialmente porque o jogo oferece maneiras práticas (e tradicionais) de acesso rápido a loot e upgrades sem grande burocracia.

No aspecto técnico, pequenas falhas persistem: NPCs secundários podem parecer bem genéricos ou pouco detalhados quando olharmos de perto, e alguns modelos de rosto de personagens destoam do capricho que encontramos das paisagens e dos protagonistas. Nada que quebre a imersão, mas são detalhes que saltam aos olhos em um jogo que visa a perfeição visual.

Em relação a performance, aqui, Ghost of Yōtei estabelece novo padrão. São vários modos visuais: Modo Qualidade (30fps em 4k nativo), Modo Performance (60fps com resolução variável entre 1080 e 1440p no PS5 e 1440p e 1800p no Pro), Modo Ray Tracing (iluminação avançada em 30fps com resolução variável entre 1800 e 2160p), e, para quem possui o PS5 Pro, onde foi que fizemos essa análise, o bom Ray Tracing Pro (60fps com ray tracing em resolução variável de 1080p a 1440p com PSSR).

Aqui na redação nós jogamos, como disse anteriormente no PS5 Pro, e utilizamos na maioria das horas o Modo Desempenho a 60fps. Já no PS5 base, se posso opinar, também seria no Modo Desempenho. Independente disso, o jogo mantém excelente estabilidade, com raríssima incidência de bugs ou quedas de performance mesmo em campos lotados de inimigos e partículas.

Durante horas de jogo, o game usa até os mínimos detalhes do hardware: você sente a textura das trilhas de folhas quando cavalga pelo DualSense, a resistência dos gatilhos em duelos sangrentos, ou a calma de sessões de pintura sumi-e deslizando o dedo pelo touchpad.

Ghost of Yōtei, ao expandir horizontes do seu precursor de forma tão ousada e competente, firma-se como uma das grandes referências do PS5 e ouso até dizer do gênero mundo aberto. A jornada de Atsu vai além da vingança, ela investiga limites humanos, questiona valores, desafia expectativas e envolve emocionalmente em cada escolha feita pelo jogador.

Seu mundo aberto é vivo, dinâmico e propenso à surpresa e momentos marcantes. A personalização de gameplay e estética, aliada a um aproveitamento técnico do hardware do PS5, garantem dezenas de horas de diversão, contemplação e, acima de tudo, imersão no mundo samurai.

Nem todos os sistemas secundários são revolucionários, e certas mecânicas tradicionais poderiam ser mais bem aproveitadas, mas tais limitações mal arranham o brilho de uma sequência que tem tudo para se tornar um marco, e olha que eu achava isso pouco provável. A Sucker Punch, ao invés de jogar seguro, ousou, refinou e, acima de tudo, respeitou a inteligência e a paixão da sua comunidade e a de quem gosta desta cultura.

Para fãs de games de ação, aventura, cultura japonesa e histórias de justiça, Ghost of Yōtei é obrigatório. Um jogo que se prova emocionante, impactante e tecnicamente muito bem-feito. E, se depender deste novo capítulo, o futuro dos samurais digitais está garantido com honra e estilo.

E para terminar, Ghost of Yōtei prova para quem ainda tinha alguma dúvida que o verdadeiro DNA da maioria dos Estúdios PlayStations ainda é a de single players narrativos e que ainda há muito fôlego para que eles possam tirar proveito disso.

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