Analisado no PC
Starfield é um RPG de ação e aventura com temática espacial desenvolvido e distribuído pela Bethesda. O título está com data de lançamento prevista para 05/09/2023 com uma versão de acesso antecipado já liberada para PC e Xbox Series X|S.
Partindo de uma ideia que vem sendo desenvolvida a quase três décadas, Starfield é a nova IP da Bethesda, um RPG que continua com o típico sistema encontrado em outros jogos da desenvolvedora, mas agora se baseando em temática espacial com várias mecânicas encontradas em jogos do gênero. Uma receita que impressiona no papel, mas que na realidade não consegue desenvolver nada muito bem, infelizmente seus sistemas na maioria das vezes acabam sendo inferiores aos de jogos indies lançados a quase 10 anos atrás e sua performance está longe do aceitável.
Sem spoilers, Starfield se passa em 2330 em um universo onde a humanidade colonizou o espaço ao redor do sistema solar através da descoberta e utilização de tecnologias que realizam saltos gravitacionais a partir dos “Grav Drives”. Com essa premissa, começamos uma aventura criando nosso personagem e nos juntando a um grupo de exploradores que estão atrás de artefatos que guardam impressionantes segredos. A história principal é legal, porém demora demais para engrenar e a trama só começou a ficar realmente interessante após mais de 15 horas de jogo quando já está chegando em seu epílogo, essa demora confirma a fala dos desenvolvedores que disseram que o jogo vai melhorar conforme você joga, mas acaba sendo um grande balde de água fria em quem não tem paciência, pois as primeiras horas de jogo são literalmente um grande tutorial sem muita coisa para se fazer. O jogo não tem um final definitivo pois temos “new game +”, sendo este uma parte interessante do conjunto que você vai ter de jogar para descobrir.
Assim como todos os outros RPGs da desenvolvedora, Starfield não só conta com uma trama principal como também centenas de missões e histórias secundárias, mas novamente nada aqui é bem desenvolvido. Na busca pelos artefatos você irá se deparar com diversas situações, algumas baseadas em clichês de ficção científica e outras que seguem o padrão de algum problema para você resolver, além dessa também é possível aceitar trabalhos secundários para fazer algum dinheiro. Sim, é possível se divertir por algum tempo com as missões secundárias, principalmente com as que aparentam terem sido criadas por alguém e não geradas de forma artificial, pois é fácil notar uma repetição de objetivos, problemas e locais após passar algumas horas realizando este conteúdo secundário.
Em sua essência Starfield é um RPG e não um simulador espacial, mas ao invés de focar em poucos planetas e em sua história, a Bethesda decidiu incluir nessa aventura elementos de exploração, combate espacial, construção de bases e modificação de naves. Um conjunto pouco desenvolvido que é uma prova de que as vezes mais é menos, não conseguindo chegar aos pés do que encontramos em outros jogos do gênero como Elite Dangerous, No Man’s Sky e Star Citizen.
O melhor nessa jogatina são os elementos de RPG que chegam com decisões que afetam suas relações com seus companheiros e um sistema de sobrevivência que utiliza os medidores de O2 e CO2 do traje espacial para representar a estamina do personagem. Além desses, temos uma boa diversidade de itens defensivos e ofensivos que podem ser criados ou modificados, além de diferentes tipos de comida e de tratamento que podem ser usados para curar enfermidades que serão adquiridas durante o jogo. O sistema mostra uma evolução quando comparado aos outros jogos da desenvolvedora, sendo que esta é a melhor parte da jogatina pois todos os outros são bastante limitados.
Infelizmente só os elementos de RPG aparentam ter sido de certa forma trabalhados, pois a exploração, o combate espacial e os sistemas de criação de base e nave são bastante primitivos e às vezes completamente descartáveis. Para começar toda a jogatina é acompanhada de incontáveis telas de loading e são telas de carregamento para tudo, de ações básicas como subir ou descer da nave, entrar em ambientes e às vezes até em cômodos dentro dos ambientes, para decolar, pousar e também para ir para outros planetas e sistemas. A maior parte dos loadings não foram escondidos em cinemáticas ou efeitos visuais e são tantas telas que às vezes para chegar em um objetivo é necessário alternar entre 4 e 5 telas de carregamento.
Não existe mundo aberto e tudo aqui é feito a partir de instâncias que tentam te dar a impressão de liberdade, sendo que as únicas consistentes são as cidades e localidades fixas, todo o restante é gerado de forma procedural com base no ambiente de cada planeta. Este sistema não seria problema se a instância de jogo não fosse tão pequena e te impedisse de explorar todo o planeta, não temos exploração dele todo e sempre que pousar em um local que não seja fixo você será colocado em um novo mapa. A navegação nos ambientes é confusa e em 2330 os humanos conseguem voar para outras estrelas, mas não sabem fazer mapas, o jogo não traz minimapa e achar qualquer coisa nas cidades é uma tarefa complicada.
Para piorar a situação não existe voo atmosférico e todo o sistema de decolagem e pouso é feito através de telas de loading e cinemáticas que mostram as ações da sua nave. Só é possível ter o controle da nave durante o voo espacial que também é limitado a uma pequena instância do mapa, não sendo possível sobrevoar o planeta nem mesmo voar para outros locais na órbita sem ver uma tela de loading. Essas limitações acabam com a imersão e fazem a nave só servir praticamente como um armazém móvel, pois não é preciso estar embarcado para iniciar uma viagem rápida e tudo vai no estilo “Scotty, Beam me up”, fazendo todo o sistema ser subutilizado.
A construção de bases é algo que só começa a se desenvolver no fim do jogo e novamente o sistema não é bem desenvolvido. Basicamente construir bases é algo que requer grandes quantidades de recursos e vai te fazer perder muito tempo para nenhuma finalidade, pois a base que tecnicamente serviria como uma espécie de quartel general ou cofre, pode ser substituída pela nave e todo este sistema acaba sendo totalmente descartável dado o custo benefício de toda a construção.
No quesito ambientação temos “belos” gráficos acompanhados de um excelente áudio, uma combinação que chega com um preço alto e também conta algumas limitações. O jogo não é feio, mas ele também não é de nova geração e os gráficos trazem um mix com bons efeitos de iluminação, sombra e atmosfera, construções com texturas até boas, porém com pouca variedade, mas o pior são os terríveis modelos de personagem. Além de não existir um único personagem bem feito, todos eles compartilham de animações bastante questionáveis e existe uma grande falta de expressões faciais, a impressão é que todos os personagens foram feitos por AÍ utilizando modelos genéricos e ninguém vai te impressionar.
Já o áudio do jogo está muito bem feito e nos apresenta a uma trilha sonora composta por uma mistura de gêneros de música clássica e eletrônica em um conjunto que não só combina como eleva a experiência. Além da bela trilha sonora que está disponível para quem adquirir a edição premium, também temos bons efeitos sonoros nas armas, naves e outros. A dublagem é boa e o jogo traz vozes para uma grande parte dos personagens, contudo a experiência é afetada pelas fracas animações que muitas das vezes não sincronizam com as falas e nem trazem as expressões corretas para os personagens.
Com uma qualidade gráfica que não é de nova geração e sistemas de jogos com instâncias limitadas, era de se esperar um bom desempenho, contudo o que temos é uma experiência extremamente mal otimizada. Com a desculpa de ser uma “decisão criativa” Starfield é limitado a 30 FPS nos consoles e os 12 Teraflops do Xbox Series X não são o suficiente para atingir os 60 quadros. No PC podemos alcançar números melhores, mas o desempenho é completamente instável.
Jogando em uma máquina composta por um Ryzen 7 5700X combinado com uma RX 6750XT, nós tivemos um desempenho em qualidade média e alta que variou de 45 a 144 quadros dependendo do ambiente. Em locais fechados o jogo se mantém perto da casa dos 100 quadros e em locais abertos como planetas temos uma média acima dos 60, já nas cidades a coisa complica e encontramos quedas para a casa dos 40 quadros. O jogo taxa bastante a CPU e ter algo mais potente pode melhorar, mas isso não será sinal de estabilidade, visto que até em locais fechados um simples movimento de câmera pode acarretar em quedas de 20 a 30 quadros. Essa falta de otimização compromete a jogatina pois 80% do jogo pode ser resumido em um título de tiro em primeira pessoa e enfrentar NPCs a 30 FPS ou com desempenho instável que não é algo divertido, ainda mais em 2023.
A Bethesda tem a má fama de lançar jogos cheios de bugs e depender da comunidade para consertar seus produtos através de mods, seus últimos single players Skyrim e Fallout 4 justificam essa fama, pois ambos demoraram anos até ficarem estáveis. Com uma tentativa de quebrar esse ciclo, Starfield recebeu maior atenção e aparenta ter passado por um controle de qualidade melhor, contudo ele continua sendo um jogo bugado da Bethesda.
A experiência com bugs em Starfield é frustrante, mas diferente dos outros títulos ela demora mais para começar a acontecer. As primeiras horas são sólidas e de bugs só é comum encontrar animações ou NPCs presos, contudo conforme as horas passam e você avança, novos problemas vão aparecendo e aumentando de proporção. Durante nossa jogatina os bugs começaram a ficar frequentes a partir das 8 horas de jogo e encontramos todo tipo de problema com NPCs voando e sumindo, itens desaparecendo da nave e da casa, chaves não funcionando e até marcações de missões mostrando lugares errados. O pior de todos e que quebra completamente seu save game é a sua nave desaparecer completamente, este problema pode ocorrer quando você utiliza naves capturadas sendo parcialmente sanado ao modificar a nave em um NPC ou painel de hangar forçando a mesma reaparecer. Infelizmente esta solução é parcial e o problema também pode ocorrer em locais onde não temos acesso a mecânica de modificação, como em planetas ou no espaço onde o jogador fica literalmente preso sem poder sair ou viajar e a única solução é carregar um save game mais antigo. Apesar do início mais sólido, este continua sendo um jogo da Bethesda que irá demandar várias atualizações até ficar estável.
O lado bom é que se os bugs continuam recorrentes o suporte a modificações também está ativo e o jogo tem potencial. Starfield foi feito tendo como base a velha engine Creation Engine da Bethesda que chega com sua versão 2 trazendo uma considerável melhora gráfica e suporte a tecnologias modernas. Tendo a mesma base dos outros títulos, Starfield chega com suporte a mods e também com o console de comandos liberado, as possibilidades são imensas e já no acesso antecipado temos várias modificações sendo desenvolvidas que incluem modelos de trajes espaciais clássicos e melhorias nos modelos de NPCs. O jogo tem muito conteúdo e com o lançamento próximo a quantidade de mods só tende a aumentar, o mais interessante é que como confirmado o jogo deve receber no futuro o suporte a modificações no console, provavelmente como aconteceu com Skyrim que teve um pacote com as modificações mais populares.
No final, Starfield é um RPG decente da Bethesda, mas um péssimo simulador espacial, a experiência deixa um gosto amargo pois o jogo tenta fazer muita coisa e acaba não desenvolvendo nada muito bem. Sua história demora a se desenvolver, seus sistemas de exploração, voo e combate são inferiores aos de jogos indies com quase 10 anos de idade e a quantidade de bugs combinada ao desempenho ruim são um problema na versão para PC. Mesmo não sendo perfeito, o jogo tem potencial e provavelmente a experiência deve melhorar com atualizações e com futuros mods. O preço cobrado é salgado e a melhor alternativa para se experimentar atualmente é jogá-lo através do Xbox Game Pass, do contrário é melhor esperar por uma promoção.
