
Silent Hill f – O terror floresce em solo japonês com um pequeno problema | Análise
O novo capítulo da franquia aposta em uma jornada profundamente simbólica, que mistura horror psicológico, cultura japonesa e o renascimento do medo que marcou gerações.
Analisado no PlayStation 5
No dia 23 de fevereiro de 1999 era lançado no Japão o primeiro Silent Hill, que, diferente de outros jogos da época, trazia uma abordagem completamente diferente, convidando o espectador a vivenciar a história de Harry Mason em busca da sua filha em uma cidade repleta de mistérios, criaturas terríveis e claro, muita névoa.
A diferença dele para outros jogos do gênero lançados na época é que o primeiro game da Team Silent aposta em um protagonista completamente comum, sendo rodeado de criaturas e perigos que grande parte das vezes temos a única opção de correr.
Essa abordagem foi revolucionária na época, transformando Silent Hill em um sucesso instantâneo em todo o mundo. Nos anos seguintes, o game foi tendo novos títulos baseados nesse estilo de gameplay, sempre tirando arrepios do jogador pela impotência do protagonista perante o mundo que é extremamente cruel e assustador.
Atualmente, o mais novo título da renomada saga é Silent Hill f, que no dia 25 de setembro de 2025, finalmente trouxe essa franquia para o Japão, seu país de origem. E convida o jogador a viver mais uma vez uma jornada aterrorizante e extremamente metafórica.
Lançado para PlayStation 5, Xbox Series X e Series S e PC, traz como protagonista da vez a inocente Hinako, que, em meio a problemas pessoais, é obrigada a lutar e fugir de monstros e criaturas tenebrosas na pequena e reclusa cidade de Ebisugaoka, no interior do Japão. Essa review foi possível graças à Konami. Adquira sua cópia física do game para PS5 na loja Gamer Hut.
Conforme o padrão da série, a cidade mergulha no silêncio e a névoa se adensa, fazendo a protagonista atravessar os caminhos tortuosos da cidade, solucionando enigmas complexos e confrontando monstros grotescos para sobreviver.
Começando pela sua história, a nova aposta da Konami é completamente independente da saga de jogos original, mas não abandona sua origem narrativa, levando o jogador a tentar descobrir quais são os problemas e dilemas da protagonista e o porquê todo este caos está acontecendo na vida de uma adolescente aparentemente comum.
Esse mistério é uma das coisas mais divertidas do game já que, para você conseguir coletar todas as pistas e entender toda a história, é necessário zerar o game mais de uma vez, com o verdadeiro final só sendo disponível após duas gameplays completas.
Para coletar todas as pistas e entender mais a história, Hirako leva consigo um diário, onde anota todas as informações que podem ser relevantes sobre os personagens do jogo e até aspectos de gameplay, sendo extremamente importante checar de tempos em tempos o caderno para entender todo sentimento da protagonista perante as principais figuras que também rondam a história.
Falando da gameplay, Silent Hill f retoma o estilo clássico de sobrevivência e exploração, mas com um toque moderno que equilibra nostalgia e inovação. A câmera permanece em terceira pessoa e os controles são mais pesados de propósito, algo que reforça a sensação de vulnerabilidade da protagonista. O jogador passa grande parte do tempo explorando ambientes fechados, resolvendo puzzles e gerenciando recursos escassos, o que remete diretamente ao clima dos títulos originais da franquia.
As sequências de combate são pontuais, mas intensas. Hinako não é uma heroína acostumada com violência — e o jogo faz questão de lembrá-lo disso. Enfrentar as criaturas requer frieza e, muitas vezes, mais coragem para fugir do que lutar. A ambientação floral-corrompida, marcada por fungos e pétalas que se misturam a sangue e carne, é o grande diferencial visual desta nova fase da série.
Ainda assim, há momentos em que o título parece se contradizer. O foco excessivo em combate, especialmente em partes mais avançadas, destoa da proposta atmosférica e introspectiva que o jogo tenta construir. Quando a ação se sobrepõe ao silêncio e à exploração, parte da tensão psicológica se perde, e o que deveria ser um mergulho no medo se transforma em um desafio puramente mecânico. Uma cadência mais contida — com ênfase no desconforto e na incerteza — teria mantido o espírito original de Silent Hill mais coeso.
Falando em gráficos, a produção da NeoBards Entertainment impressiona ao apresentar um Japão dos anos 1960 estilizado com um realismo grotesco. As texturas de cenários, a iluminação difusa e o uso da névoa são dignos de elogios — muito por conta de criar uma atmosfera e por compor a própria identidade narrativa do game. Cada rua, cada casa abandonada, e até as pequenas lojas de Ebisugaoka carregam simbolismos e metáforas visuais que ajudam o jogador a decifrar o drama de Hinako.
Mas ainda sim os gráficos podem ser um problema para uma parcela de jogadores que talvez estejam procurando um visual mais polido e compatível com os grandes lançamentos deste ano. Afinal, os visuais apresentados do game grande parte das vezes parecem ser de uma geração passada, com diversas situações que encontramos texturas mal polidas e regiões com poucos polígonos, podendo ser um problema para alguns. Portanto podemos dizer que Silent Hill f peca no micro, mas se destaca muito na ambientação e em toda a composição de cenário.
O desempenho técnico, por outro lado, ainda não é perfeito. Em consoles, o jogo mantém 60 FPS estáveis, mas no PC foram relatados engasgos ocasionais em áreas abertas, especialmente durante trocas bruscas de iluminação. Pequenos bugs de colisão e quedas de textura também aparecem, mas nada que comprometa a experiência. A Konami já confirmou que uma atualização está a caminho para corrigir esses detalhes.
Já a parte sonora de Silent Hill f brilha. A trilha composta por Akira Yamaoka retorna às origens com melodias melancólicas e ruídos industriais, que se fundem a sons da natureza de forma desconfortante. O design de som é simplesmente aterrorizante, sendo um dos pontos mais incríveis do jogo: passos ecoam à distância, portas rangem com um peso quase físico e os gritos distorcidos das criaturas criam uma imersão completa. É um jogo que exige ser jogado com fones de ouvido — e talvez, luzes acesas.
A ambientação é o ponto alto do game. O Japão rural dos anos 60, retratado em tons frios e decadentes, é um cenário raro em produções de terror. A direção de arte acerta ao unir o horror corporal com elementos da cultura japonesa, como flores de lótus, tradições xintoístas e simbolismos ligados à morte e ao renascimento. Tudo isso faz de Silent Hill f uma experiência que vai além do susto: é um mergulho psicológico e estético sobre culpa, repressão e transformação.
Em conclusão, Silent Hill f se mostra uma obra ambiciosa e visualmente fascinante, mas que em certos momentos parece não confiar totalmente em sua própria atmosfera. É um jogo que flerta com a genialidade quando mergulha em seu terror simbólico e na construção de um mundo repleto de metáforas e significados, mas se distancia dela quando prioriza o combate em detrimento da tensão e do silêncio — pilares que sempre definiram Silent Hill.
Isso nos leva a crer que, se tivesse se apoiado mais na força da ambientação e no horror psicológico do que na ação e combate, estaríamos diante de um título verdadeiramente memorável. Ainda assim, é um retorno digno e cheio de personalidade, capaz de reacender o medo e a curiosidade que a série sempre soube despertar.












