Entre os dias 29 de abril e 03 de maio, Marcelo Rodrigues e eu estivemos imersos na gamescom latam 2026, acompanhando de perto o que há de mais quente no cenário de games. O evento abriu as portas no dia 29 com um foco exclusivo para a imprensa, convidados e o setor de business, o que nos permitiu circular com um pouco mais de calma antes da abertura para o grande público. No geral, o saldo foi extremamente positivo, especialmente quando comparamos com edições anteriores. Houve uma evolução clara na maturidade da organização: o evento foi “direto ao ponto”, sem aquelas cerimônias de abertura arrastadas e desnecessárias que costumam tirar o foco do que realmente importa: os jogos.
A estrutura do pavilhão foi muito bem pensada, com a divisão por áreas, Hero Zone, Open Zone, Shadow Zone e Neo Zone, facilitando demais a nossa navegação e a fluidez do público. Outro acerto que merece destaque foi a montagem dos palcos para palestras e conteúdos; o uso de fones de ouvido para a plateia foi uma sacada genial, evitando aquela poluição sonora caótica que geralmente acontece em feiras desse porte. No fim das contas, a gamescom latam 2026 se sentiu como um verdadeiro santuário para quem quer jogar, com estandes repletos de estações e títulos de peso, como o impressionante Phantom Blade Zero, que foi, sem dúvida, um dos grandes destaques visuais do pavilhão.
Na parte de bastidores, sentimos pela primeira vez um alinhamento muito eficiente com as assessorias de imprensa estrangeiras. O agendamento foi fluido e profissional, algo que facilita absurdamente o nosso trabalho de cobertura. Por outro lado, fica o puxão de orelha para as assessorias brasileiras, que ainda pecam pela lentidão no envio das agendas em comparação com os times internacionais. E, falando em “puxão de orelha”, não dá para ignorar o elefante na sala: os preços abusivos na praça de alimentação. Pagar R$ 11 numa água, R$ 17 em um refrigerante e encarar uma média de R$ 75 por uma refeição completa é algo que foge completamente da realidade e que gera uma crítica pesada de quem frequenta o evento.
Abrindo nossa série de conversas, batemos um papo com o Bruno Klipel sobre o instigante IRONHIVE, da Wondernaut. O jogo faz uma aposta ousada ao misturar city-builder com deck-building em um cenário melancólico onde a humanidade luta para deixar um legado. O que mais me chamou a atenção foi como as cartas não são apenas “golpes”, mas representam recursos vitais como cidadãos e lideranças. Bruno destacou que, após quatro anos de desenvolvimento, o foco total foi no feedback da comunidade para tornar o gênero acessível, tudo envelopado em uma estética de silhuetas muito imersiva. O game já tem demo na Steam e vale muito o seu wishlist.
Ainda no clima de propostas diferenciadas, conversamos com a Ana Vitória sobre Drowned Lake, um survival horror da Monumental Collab que usa a pescaria como base para o medo. O jogo foca no terror atmosférico, fugindo dos jump scares fáceis e apostando pesado no design de som — o uso de fones de ouvido aqui é obrigatório para sentir a tensão. Com uma estética low-fi que remete a found footage e influências que passam pelo folclore do sul do Brasil e até tragédias reais como Brumadinho, a narrativa fragmentada promete prender o jogador em um mistério denso.
Em um momento de celebração do talento nacional, falamos com Pedro Gabriel, da Epopeia Games, sobre o fenômeno Mullet Madjack. O foco da conversa foi a chegada do jogo ao Nintendo Switch, o que exigiu um trabalho primoroso de otimização de texturas para manter os 60fps constantes e a inclusão de mira por giroscópio. Pedro refletiu sobre como o estigma contra jogos brasileiros finalmente caiu por terra, com produções nossas sendo reconhecidas globalmente pela qualidade técnica e visual. O jogo continua sendo aquele boomer shooter frenético que a gente ama, agora na palma da mão.
Ainda com a Epopeia Games, o Diretor de Arte Gustavo Silveira nos deu detalhes sobre o promissor Bravo, Gaspar!. O game é um roguelike de coleta de criaturas com uma temática bem particular: o protagonista busca recuperar sua alegria através de espetáculos feitos com sucatas. O que brilha aqui é a direção de arte, que mistura a melancolia de Tim Burton com a fauna brasileira representada por seres construídos de “lixo”. É um projeto apoiado pela Lei Paulo Gustavo e que mostra uma maturidade narrativa rara, com escolhas morais que impactam o ciclo de vida e morte do personagem.
Saindo um pouco do software e indo para o hardware, conversamos com Daniel Santarem sobre a estratégia da ADATA/XPG no Brasil. Com fábricas em solo nacional, a marca entende as dores do gamer brasileiro, especialmente a questão térmica em um país tropical. Daniel explicou como os dissipadores de calor em memórias e SSDs são diferenciais de engenharia, não apenas estética. A ideia da XPG é clara: trazer a performance de elite das fábricas de Taiwan com um custo-benefício que faça sentido para o nosso mercado, mantendo o engajamento com a comunidade através de grandes nomes dos esports.
A evolução visual também foi pauta no nosso encontro com a TCL e a Dolby. O destaque ficou para a nova linha de monitores com tecnologia Mini LED, alcançando taxas de atualização absurdas de até 480Hz. A parceria com a Dolby visa garantir que a intenção artística do desenvolvedor chegue intacta ao jogador, tanto no contraste infinito do Dolby Vision quanto na precisão sonora do Dolby Atmos. É interessante ver uma marca global tratando o Brasil com o mesmo portfólio de ponta que oferece na China ou nos EUA, sem “capar” as especificações dos produtos.
Em uma frente mais institucional, mas não menos importante, Andrés Mociulsky da Visa explicou como a empresa está se transformando em uma marca de lifestyle gamer. Além de patrocínios a gigantes como a Team Liquid, o foco está em benefícios reais, como descontos e cashback através do programa “Vai de Visa”. Andrés destacou o uso de Inteligência Artificial para tornar as transações dentro dos jogos mais seguras, combatendo fraudes de forma invisível para que o jogador possa focar apenas na diversão e na segurança das suas conquistas digitais.
Fechando nosso ciclo de entrevistas, batemos um papo com o Leandro Rocha sobre as novidades da Logitech G. O estande deles estava pegando fogo com o anúncio mundial do teclado G512X e o cobiçado mouse Pro X 2 Superstrike, desenvolvido em parceria com pro-players de elite. Leandro reforçou o compromisso da marca com o suporte premium no Brasil, oferecendo dois anos de garantia e estudando a carga tributária para manter os periféricos competitivos. De headsets ultra leves a teclados com conectividade tripla, a ideia é que o setup acompanhe o usuário do trabalho ao gameplay de alto nível.
Além das entrevistas, a nossa maratona de testes na gamescom latam 2026 foi intensa, com 9 experiências que variaram de grandes produções a projetos independentes brasileiros que transbordam personalidade. Para facilitar a sua navegação, separei cada um dos nossos hands-on abaixo.
Um dos projetos mais vibrantes que testamos foi Talaka, um roguelite de ação da Potato Kid que traz uma temática raríssima: a mitologia afro-brasileira e elementos da Umbanda. Controlamos a protagonista em uma jornada pelo mundo dos orixás após o falecimento de sua avó, encontrando figuras como Exu e Ogum. Visualmente, o estilo pintado à mão é lindíssimo, e o gameplay se mostrou muito “justo” — apesar da dificuldade com chefes lembrar um pouco a estrutura de um Metroidvania, o sistema de troca de armas sem descarte imediato torna a experiência muito convidativa.
Para quem busca algo mais familiar, experimentei o fofíssimo Starlit World. A franquia, que já é conhecida pelo Starlit Kart, agora aposta em um plataforma 3D clássico focado no resgate de Starlits em diversos mundos. O jogo apresenta ciclos de dia e noite que impactam os desafios, e embora a build de demonstração tenha exigido um tempinho para eu pegar o ritmo dos controles, a performance estava muito fluida. É aquele tipo de jogo colorido e leve, perfeito para jogar com a família no sofá.
Mesmo não sendo os maiores entusiastas da atual “febre” de deckbuilders pós-sucesso de Balatro, ficamos impressionados com Sigils of Nightfall. O game mistura mecânicas de cartas com dungeon crawler em primeira pessoa, tudo inspirado no RPG Mörk Borg. O visual é fenomenal: um labirinto 3D em pixel art com um contraste agressivo entre cinza chumbo, vermelho e amarelo. É um projeto sombrio que desperta uma curiosidade genuína pela sua atmosfera, mesmo para quem ainda está saturado do gênero de construção de baralhos.
Outro destaque que me deu muito prazer em jogar foi EDEN’S FRONTIER. Esse Action RPG respira a essência dos clássicos dos anos 90 e 2000, como a série Mana. A fluidez do combate é ótima, mas como o mapeamento de botões no controle de Xbox ainda não está finalizado, sugeri aos desenvolvedores a implementação de um rebind (especialmente para colocar o ataque no botão A). Eles se mostraram super abertos ao feedback, o que mostra o cuidado do Frontiers Group Entertainment com a experiência final do jogador.
Como já comentamos anteriormente, Yoshi and the Mysterious Book foi uma das grandes surpresas da feira. Esqueça a ideia de que é “só um jogo infantil”; o sistema de descoberta nas páginas do Professor N. Igma exige perspicácia e exploração constante. Rodando com um visual deslumbrante no Nintendo Switch 2, o game traz um nível de desafio maior que os títulos recentes da série e uma localização para o português recheada de trocadilhos que dão um charme especial à jornada. É um exclusivo de peso para maio de 2026.
No Steam Deck, testamos o ousado Poly Fighter, um roguelike de luta desenvolvido por uma equipe canadense. A mecânica de progressão é viciante: você navega por um mapa estilo OutRun e, ao derrotar oponentes, “rouba” seus golpes à la Mega Man. O jogo oferece um modo simplificado e um modo “pro”, sendo que este último exige comandos complexos de arcade que foram bem desafiadores no portátil. É uma proposta single player muito sólida e um sopro de criatividade para o gênero de luta.
Na parte de acessórios, o Marcelo Rodrigues testou a G’AIM’E Time Crisis Lightgun, que tenta resgatar a nostalgia dos arcades em TVs modernas com jogos licenciados da Namco. O kit com pistola e pedal é leve e confortável, recriando fielmente a jogabilidade de clássicos como Time Crisis. O ponto negativo, infelizmente, foi a precisão: em apenas 20 minutos de jogo, foi necessário recalibrar a mira quatro vezes. A empresa está tentando trazer o produto oficialmente para o Brasil, mas a questão da precisão e o preço de 200 dólares lá fora são pontos de atenção.
Para os fãs de roguelites de ação, Realm of Ink é um nome para anotar. O jogo, que está em acesso antecipado, foi inevitavelmente comparado a Hades pela sua estrutura, mas brilha com uma identidade visual própria baseada em pinturas de tinta. O gameplay permite alternar entre diferentes tipos de tinta para variar os ataques e conta com um sistema de companheiros que ajudam no combate. A evolução técnica desde os primeiros anúncios é visível, entregando uma experiência muito fluida e artisticamente impecável.
Fechando com chave de ouro, jogamos em coop o aguardado LEGO Batman: O Legado do Cavaleiro das Trevas. Foram cerca de 1h30 de demonstração cedida pela Warner e a influência da série Arkham é nítida, desde o combate com contra-ataques até a densidade do mundo aberto. O diferencial aqui é o foco em apenas sete personagens jogáveis, cada um com sua própria árvore de habilidades, abandonando o excesso de bonecos dos jogos anteriores em favor de mais profundidade. O game chega em 22 de maio totalmente localizado para o nosso idioma.
