Analisado no PlayStation VR2 pelo PS5 Pro
Dizem que alguns jogos envelhecem mal, mas Myst definitivamente não é um deles. O clássico lançado originalmente em 1993 consegue até hoje passar aquela sensação de mistério e curiosidade que poucos jogos conseguem, e entrar naquela ilha agora em realidade virtual é algo que eu sinceramente esperei por muitos anos. Afinal de contas uma coisa é olhar para Myst em uma tela, outra completamente diferente é ESTAR dentro daquele mundo estranho cercado de mecanismos, livros misteriosos e puzzles que parecem querer testar nossa paciência o tempo todo.
E já vou avisando uma coisa: Myst não é um jogo pra quem gosta de setinha indicando caminho, marcador no mapa, NPC gritando o que você tem que fazer ou tutorial pegando na sua mão a cada cinco segundos. Aqui o jogo simplesmente te joga na ilha e fala algo tipo: “se vira”. E quer saber? Isso acaba sendo parte do charme dele.
A sensação inicial ao chegar na ilha é muito boa. Você olha em volta, escuta os sons do ambiente, começa a mexer em alavancas, apertar botões, abrir livros e tentar entender o que diabos aconteceu naquele lugar. E é justamente aí que o VR ajuda MUITO, porque a imersão faz diferença em um jogo como esse. Você não está apenas resolvendo puzzles, você está explorando um lugar desconhecido praticamente como se estivesse dentro dele.
E uma das coisas mais importantes em Myst são justamente os livros espalhados pelos cenários. Muita gente pode acabar ignorando eles por achar que são apenas itens decorativos ou textos jogados ali pra “encher linguiça”, mas não. Ler os livros aqui é praticamente obrigatório. É através deles que entendemos melhor a história da ilha, a relação entre Sirrus e Achenar, os acontecimentos envolvendo a família e principalmente as pistas dos enigmas.
Aliás eu diria até que Myst pune jogadores preguiçosos nesse sentido, porque se você não prestar atenção no que lê, provavelmente vai ficar andando em círculos sem entender absolutamente nada do que fazer. O jogo não vai parar pra explicar puzzle, não vai marcar objetivo no mapa e muito menos entregar solução pronta. Então observar e ler fazem parte da experiência quase como mecânicas principais.
Os livros também funcionam como portais para outras “Eras”, que seriam basicamente outros mundos com suas próprias características, puzzles e ambientações. E é legal perceber como cada lugar tenta contar sua própria história apenas através do ambiente, sem precisar jogar exposição na nossa cara o tempo inteiro.
Só que infelizmente nem tudo funciona tão bem assim nessa versão para PSVR2.
Logo nas primeiras horas comecei a perceber algo que me incomodou bastante: a falta de nitidez da imagem. O jogo tem momentos muito bonitos artisticamente, isso é verdade, mas tecnicamente falando ele deixa bastante a desejar. Em vários momentos parece que existe uma camada embaçada na frente da visão, como se a imagem nunca estivesse realmente limpa. E isso pesa ainda mais quando pensamos que o PSVR2 já recebeu jogos muito mais bonitos e mais nítidos.
As texturas também deixam a desejar em alguns pontos, principalmente quando olhamos objetos mais de perto. Não chega a ser algo horrível a ponto de destruir a experiência, mas é impossível não pensar que Myst merecia um tratamento visual muito mais caprichado nessa adaptação para VR. Porque sinceramente? A atmosfera do jogo é fantástica, e com gráficos mais refinados isso aqui poderia facilmente virar uma das experiências mais impressionantes do headset.
E falando em interação, aqui existe uma coisa curiosa: o jogo deixa mexermos em vários objetos do cenário, mas tudo de uma forma bem limitada. Dá pra abrir gavetas, mexer em globos, puxar alavancas, apertar mecanismos e tocar em diversos elementos espalhados pelos mapas, mas não espere aquela física complexa de jogos mais modernos em VR. Muitos objetos parecem existir mais como decoração ou parte dos enigmas do que itens realmente interativos. Inclusive alguns simplesmente voltam para o lugar quando soltamos eles, o que quebra um pouco aquela sensação de estar manipulando objetos reais.
Mas sinceramente? Acho que isso acaba funcionando dentro da proposta do jogo, porque Myst nunca foi sobre física realista ou combate, ele sempre foi sobre exploração, observação e quebra-cabeças. E nisso ele continua funcionando muito bem.
E falando em atmosfera, uma coisa que o jogo acerta MUITO é no som. O áudio aqui ajuda demais na imersão. Os efeitos ambientes, o silêncio estranho de certos lugares, os sons mecânicos das máquinas e principalmente as vozes dos personagens ajudam bastante a criar aquela sensação de isolamento e mistério que Myst sempre teve. Inclusive acho que as vozes ficaram muito boas e conseguem passar bem a personalidade dos personagens mesmo aparecendo relativamente pouco.
Agora uma coisa importante: Myst exige paciência. Muita paciência.
Os puzzles aqui não querem saber se você está cansado, distraído ou sem vontade de pensar. Alguns enigmas são extremamente inteligentes, enquanto outros podem facilmente fazer você ficar andando em círculos por bastante tempo tentando descobrir o que deixou passar. E isso pode afastar muita gente hoje em dia, principalmente jogadores acostumados com experiências mais rápidas e diretas.
Só que ao mesmo tempo existe uma satisfação muito grande quando finalmente entendemos algum puzzle sem ajuda da internet. É aquele tipo de jogo que faz você parar, observar o cenário, prestar atenção nos sons, ler documentos, memorizar símbolos e realmente usar a cabeça, algo que sinceramente anda meio raro atualmente.
Minha consideração final sobre Myst VR é que ele continua sendo um clássico extremamente respeitável e uma experiência muito interessante para fãs de puzzle e exploração, principalmente pela nostalgia de finalmente caminhar pela famosa ilha em realidade virtual. Mas ao mesmo tempo fica aquela sensação de oportunidade perdida, porque com um polimento gráfico melhor ele poderia facilmente ser uma experiência obrigatória no PSVR2.
Não é um jogo pra todo mundo, exige paciência e gosta de deixar o jogador perdido de propósito, mas talvez seja exatamente isso que faça Myst continuar sendo Myst depois de tantos anos.
Veredito Gamers & Games
7.5
/ 10
“Myst VR consegue transformar o clássico em uma experiência extremamente imersiva no PSVR2, mantendo seus puzzles inteligentes e atmosfera marcante. Apesar das limitações gráficas e da falta de nitidez em alguns momentos, a exploração da ilha em realidade virtual continua fascinante para fãs de puzzle e mistério.”
