Star Fox – Um Fox velho, mas com motor novo | Análise

Uma viagem espacial tecnicamente brilhante, mas que repete a mesma missão.

Analisado no Nintendo Switch 2


Star Fox sempre foi uma daquelas séries queridas, mas maltratadas da Nintendo. Desde a estreia no Super Nintendo, passando pelo Star Fox 64 e suas revisitas em 3DS e Wii U, Fox McCloud e sua equipe vivem basicamente o mesmo enredo com embalagens diferentes. O remake para o Nintendo Switch 2 não foge desse padrão: de novo estamos defendendo o sistema Lylat da ameaça de Andross, de novo pilotando a Arwing em rotas alternativas, de novo limpando a horda de inimigos.

O que muda é a embalagem. Nas mãos da Velan Studios, Star Fox ganhou o tipo de tratamento que os fãs pedem há anos: gráficos modernos com uso pesado de HDR, cutscenes renderizadas em tempo real com cara de filme animado, dublagem refeita em vários idiomas, inclusive em português do Brasil, narrativa expandida e um pacote de modos extras que vai além de simplesmente “refazer o que já existia”.

Ao mesmo tempo, é um jogo que não tenta convencer quem nunca gostou da fórmula. A estrutura ainda é a de um rail shooter japonês com DNA de arcade, mais perto de um “passeio de trilhos com alto índice de repetição” do que de um shooter moderno com liberdade total. É aquele típico caso de remake pensado primeiro para quem já ama a série, e só depois para curiosos.

Em essência, a história continua a mesma desde 1993: Andross ameaça o sistema Lylat, General Pepper contrata a equipe Star Fox, e Fox, Falco, Slippy e Peppy levantam voo em seus Arwings para salvar o dia. É o enredo mais clássico possível de “grupo de mercenários heroicos vs cientista louco”, sem grandes reviravoltas, pensado muito mais como desculpa para a ação do que como narrativa complexa.

A grande diferença aqui está em como essa história é contada. Pela primeira vez, a franquia recebe um tratamento realmente cinematográfico dentro de um jogo principal. As cutscenes 3D, totalmente dubladas e animadas com muito mais cuidado do que estamos habituados em títulos de Nintendo, transformam aqueles antigas caixa de textos em cenas que você realmente espera ver. Há mais contexto sobre as rotas alternativas, mais diálogos entre a equipe e General Pepper, piadas novas, pequenos comentários antes, durante e depois das missões. Tudo isso ajuda a dar mais vida ao universo de Star Fox sem descaracterizar o espírito original.

Um destaque é o Holovisor, uma espécie de enciclopédia visual interativa que reúne informações sobre personagens, planetas, rotas e eventos. Ele funciona tanto como fan service quanto como ferramenta para novos jogadores entenderem melhor por que certas ramificações de caminho existem, o que torna o “mosaico” de Lylat mais coeso. É uma forma inteligente de atualizar uma história muito simples, adicionando detalhes pontuais que enriquecem o lore sem inventar moda demais.

Ainda assim, é importante ser honesto: o enredo continua curto e relativamente raso se comparado a padrões narrativos modernos. Como “cartão de visita” da franquia, funciona bem, apresentando elenco e universo; como narrativa principal de um lançamento, mesmo que não seja preço cheio, fica claro que Star Fox ainda precisa, no futuro, de uma aventura inédita pensada desde o início.

Se tem um aspecto em que o remake é quase dogmático, é a jogabilidade. A base foi preservada com fidelidade total ao Star Fox 64: rail shooter com fases relativamente curtas, rotas alternativas, condições específicas para acessar caminhos secretos, medalhas por planeta, pontuação por acertos e foco em manter companheiros vivos.

Você avança pelas chamadas “fases sobre trilhos” (às vezes com seções em “all-range mode” que liberam movimentos em arena), limpando a tela de inimigos, desviando de obstáculos, protegendo aliados e buscando atingir uma certa quantidade de hits para termos acesso à medalhas e modos extras. A sensação é, por intenção, muito próxima da do N64, tanto que a “memória muscular” de veteranos é recompensada: tudo está onde você lembra, no timing que você lembra. A diferença é que, agora, tudo é mais suave, responsivo e visualmente carregado.

A manobrabilidade da Arwing é mais refinada graças aos controles do Switch 2, com resposta mais rápida e um frame rate estável a 60 fps na maior parte do tempo. Isso aumenta a sensação de velocidade sem sacrificar precisão. Aqui vale um pequeno detalhe: os novos efeitos gráficos, que pesam um pouco na clareza visual em certos trechos, atrapalham um pouco para conseguirmos medalhas e pontuações máximas.

O grande destaque em termos de modos é o novo Modo Desafio. Além do clássico modo Expert e da caça a medalhas por planeta, o Modo Desafio oferece até seis objetivos específicos por fase, coisas como atingir determinado número de acertos, manter todos os aliados vivos, cumprir requisitos sob restrições de HUD, tempo ou recursos. É o tipo de conteúdo que faz sentido num jogo fortemente baseado em repetição: ele te convida a revisitar fases, experimentar rotas, testar estratégias e extrair o máximo da mecânica.

Esse modo, junto com o Modo Especialista, é praticamente a espinha dorsal de quem vê Star Fox como jogo de habilidade, não só como campanha de fim de semana. Alguns desafios são bem puxados e exigem muitas tentativas ( e bota tentativas nisso), o que faz dele um prato cheio para speedrunners e caçadores de 100%.

Outra novidade curiosa é o modo “mouse”. Ao apoiar o Joy-Con em uma superfície plana, o jogo troca para uma visão em primeira pessoa dentro da cabine da Arwing, e o controle passa a funcionar como um mouse: movimentando o Joy-Con, você mira e controla a direção da nave. Em single player, ele não muda radicalmente a jogabilidade, já que não separa mira e trajetória, você basicamente faz a mesma coisa com outra perspectiva. É um modo mais “cinematográfico” do que funcional, mas serve como brinde tecnológico. Um pequeno detalhe. Como joguei ele em uma TV de 65 polegadas, senti um certo desconforto (enjoo) enquanto jogava neste modo.

Onde o modo “mouse” faz total sentido é no co-op local, em que um jogador pilota a Arwing e o outro controla a mira e o disparo de forma independente. Com certeza essa decisão foi espetacular, pois separa claramente as funções, permitindo que um jogador foque em desviar e posicionar, enquanto o outro se concentra em otimizar o dano. Com boa comunicação entre os jogadores, está é a melhor opção de rejogar fases já decoradas de cor.

Em termos de design de fases, a fidelidade ao original é tanto virtude quanto limite. Você tem a mesma Corneria, Meteo, Zoness, Titania, Venom… com rotas alternativas e pequenas variações. Alguns cenários ganham muito com o novo visual e a nova iluminação; outros, especialmente versões multiplayer de mapas como Corneria e regiões como Fichina, parecem mais “crus”, menos caprichados em comparação com o restante. Mas, estruturalmente, tudo é muito reconhecível.

Mas aqui vai um aviso muito importante para novos jogadores:  Primeiro, é um jogo relativamente curto, a campanha principal pode ser terminada em 2 a 3 horas facilmente (terminei em 2 horas); Segundo: o game tem uma jogabilidade que pode parecer antiquada, mais lenta e “sobre trilhos”, principalmente se comparada a shooters modernos.

Há múltiplas dificuldades para esticar a vida útil, e o Modo Desafio adiciona bastante densidade, mas, se você entrar esperando um “dogfight sandbox”, vai se frustrar: Star Fox continua sendo um jogo controlado quase o tempo todo.

É aqui que o remake realmente mostra por que existe. Star Fox no Nintendo Switch 2 é, sem exagero, um dos jogos tecnicamente mais impressionantes da plataforma.

O uso de HDR é um espetáculo à parte. Os motores das Arwings, explosões, lasers e reflexos especulares têm um brilho e uma separação de luminosidade que raramente se vê em títulos da própria Nintendo. Em uma TV com HDR bom, é aquele tipo de jogo que você liga para mostrar o console pros seus amigos. O frame rate estável a 60 fps, combinado com a simplicidade estrutural das fases, garantindo fluidez constante.

As texturas são de alta resolução e os efeitos de partículas dão aos combates um visual incrível. Embora muitos percursos ainda sejam relativamente simples em geometria, como asteroides, campos abertos, trilhos bem delimitados, a qualidade da renderização e da iluminação dá nova vida a espaços que, no SNES e N64, eram muito mais abstratos.

As cutscenes são renderizadas em tempo real e aproveitam um nível de detalhe nos personagens que impressiona: os pelos, metais, tecidos e efeitos de luz dão aos modelos um acabamento que lembra animação de alto orçamento. O novo design do esquadrão Star Fox, inspirado nas versões de Super Nintendo, mas com um toque mais realista, é provavelmente o ponto mais controverso da apresentação. Fox, Falco, Slippy e Peppy têm agora um aspecto quase hiper-realista, que foge daquela linha “fofinho” que muita gente consolidou especialmente depois da aparição de Fox no filme de Super Mario Galaxy. É uma escolha arriscada, que claramente divide opniões; como homenagem pontual ao original, funciona; como visual “definitivo”, muita gente preferiria a versão mais cartoon.

Em relação a parte de áudio, o trabalho é de primoroso. A trilha sonora clássica de Koji Kondo e Hajime Wakai foi novamente orquestrada sob direção de Matt Piroj, com arranjos que elevam Corneria, Meteo, Zoness, Titania e Venom a patamares quase cinematográficos. Aquele DNA meio Star Wars, só que com toques de Nintendo, está ainda mais explícito, com cordas, metais e percussão fazendo jus às composições originais e, em vários momentos, superando o impacto que elas tinham nas versões antigas.

O design de som e o uso de som surround são, também, ótimos: alvos vindo de diferentes direções, avisos de aliados, explosões e efeitos espaciais criam um ambiente sonora muito rico. O resultado é um dos jogos da Nintendo que melhor usam áudio multicanal no Switch 2.

O novo elenco de dublagem traz interpretações fortes, e a reescrita dos diálogos consegue manter frases icônicas enquanto adiciona contexto e um toque de modernidade. Algumas piadas e memes clássicos se foram, mas o saldo é positivo porque a narrativa flui melhor e há mais informação útil sendo passada sem que tudo pareça explicação forçada. E melhor ainda, agora podemos ouvir tudo isso em português do Brasil, que ficou excelente.

Tecnicamente, o Viper Engine da Velan Studios entrega um resultado sólido, sem problemas gritantes de performance ou bugs. É um trabalho que certamente coloca o estúdio no radar da Nintendo para projetos futuros, possivelmente até um Star Fox completamente inédito. Que Deus nos ouça.

O remake não se limita à campanha e aos desafios solos. O jogo traz um Modo Batalha completamente refeito, com multiplayer tanto local (via múltiplos consoles) quanto online.

Não há tela dividida para quatro jogadores como no N64, e isso, para muita gente, dói na nostalgia. Em compensação, o jogo adota um modelo mais alinhado com a realidade atual: uma cópia física/digital permite que até quatro consoles participem via GameShare, inclusive consoles Switch 1, conectados localmente ou online. É uma solução elegante para recriar o espírito das noites de multiplayer sem sacrificar performance ou qualidade visual.

O Modo Batalha traz apenas três mapas, o que, honestamente, é pouco, mas a base mecânica é forte: combates aéreos intensos, respawns frequentes e objetivos que variam de simples deathmatch por equipes a modos com captura de objetivos. Há estrutura de prêmios, rankings e progressão, sinalizando a intenção de expandir o conteúdo no futuro se a base de jogadores responder bem. Não é um shooter online completo, mas é mais robusto do que o modo multiplayer original, que era bem básico.

GameChat é outro destaque interessante. Usando a câmera do Switch 2 e filtros de realidade aumentada, ele coloca o seu rosto “disfarçado” como Fox, Falco, Slippy ou outros personagens, com expressão facial acompanhando seu movimento. Funciona surpreendentemente bem, mesmo em ambientes com pouca luz, e adiciona uma camada de personalidade às sessões online. Você pode personalizar seu avatar, fundos e elementos visuais, dando aquela sensação “brincalhona” típica da Nintendo.

No geral, os extras do Switch 2, modo mouse, co-op local com divisão de funções, GameShare e GameChat, são justamente isso: extras. Nenhum deles muda a estrutura fundamental do jogo, mas todos adicionam variação e frescor a uma fórmula já muito conhecida.

Como remake, Star Fox no Switch 2 entrega exatamente o que se espera de uma releitura moderna bem-feita. Ele respeita profundamente a base jogável do original, melhora os controles, performance e apresentação, expande a narrativa com cuidado, adiciona modos que fazem sentido dentro da lógica arcade de repetição e ainda traz um pacote de extras que dialogam com as capacidades do hardware atual.

Por outro lado, ele também herda todas as limitações da obra de origem. A campanha ainda é curta demais para padrões atuais, o design de fases ainda é, essencialmente, o mesmo, e a estrutura de rail shooter continua sendo um gosto adquirido, não um formato universalmente atrativo. O fato de ser, na prática, a quarta vez que jogamos a mesma história com roupagem nova também pesa: Star Fox 64, Star Fox 64 3D, Star Fox Zero e agora, esta nova versão, todos giram em torno do mesmo eixo narrativo.

Isso coloca o jogo numa posição bem específica: ele é um presente de altíssima qualidade para quem ama Star Fox, e uma boa porta de entrada para novos jogadores curiosos sobre a série, desde que esses novos jogadores tenham consciência de que estão prestes a experimentar um design de quase 30 anos com uma camada moderna por cima. Para quem nunca suportou a fórmula de “tiro em trilhos”, nem adianta tentar que vai se arrepender

Olhando para o futuro, o grande recado que esse remake passa é outro: Fox e sua equipe merecem, finalmente, uma aventura nova, escrita do zero para a realidade atual. Se Velan e Nintendo levarem adiante o que construíram aqui, como técnica robusta, respeito ao legado, vontade de ampliar narrativa e sistemas, há uma base excelente para um Star Fox inédito que finalmente quebre esse ciclo interminável da mesma história.

Star Fox no Nintendo Switch 2 é o tipo de remake que faz escola dentro da própria Nintendo. Ele mostra como revisitar um clássico sem diluir sua identidade, atualizando gráficos, som, narrativa e conteúdo extra sem reescrever o DNA do jogo. Ao mesmo tempo, deixa claro que a série não pode viver eternamente de revisitarem a mesma missão.

Como pacote, ele vale muito para quem já tem história com Fox McCloud ou quer experimentar o “Star Fox definitivo” nessa linha clássica. Para quem busca campanhas longas, narrativas complexas ou shooters de naves com liberdade total, ele vai parecer curto e antiquado.

Veredito Gamers & Games:

Nota Final
8.0
/ 10

“Star Fox no Nintendo Switch 2 entrega um remake extremamente competente, modernizando gráficos, áudio, narrativa e modos extras sem perder a essência do clássico. A campanha curta e a repetição da mesma estrutura limitam seu potencial, mas o resultado é a melhor versão já lançada desta aventura.”

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