Beast of Reincarnation – O RPG que me fez esquecer que eu nem gosto tanto de RPG | Análise

Analisado no PlayStation 5


Quando a GAME FREAK anunciou Beast of Reincarnation, muita gente torceu o nariz. E, sinceramente, era compreensível. A desenvolvedora carrega nas costas um dos maiores fenômenos da indústria com Pokémon, mas também convive há anos com críticas relacionadas à evolução técnica de seus jogos. Já a publicação ficou por conta da Fictions, que apostou em um projeto completamente diferente do que normalmente associamos ao estúdio. O resultado? Um dos RPGs de ação mais interessantes que joguei nos últimos tempos e, sem exagero, uma das maiores surpresas recentes da indústria.

Vou fazer uma confissão antes de qualquer coisa: RPG definitivamente não está entre meus três gêneros favoritos. Sempre fui muito mais do cara que procura experiências lineares, histórias cinematográficas, survival horrors, aventuras de ação e jogos que conseguem manter um ritmo constante do começo ao fim. Não tenho absolutamente nada contra RPGs. Pelo contrário. Apenas nunca fui aquele jogador que passa centenas de horas farmando equipamentos, decorando builds ou explorando cada centímetro de um mapa gigantesco (mentira, eu explorei GTA, Red Dead Redemption 2 e Assassin’s Creed Valhalla até a exaustão).

Por isso mesmo, entrei em Beast of Reincarnation praticamente sem expectativas. E talvez tenha sido justamente esse o segredo. Porque sem esperar absolutamente nada, encontrei um jogo que conseguiu me prender desde as primeiras horas. Não porque inventou uma nova fórmula, mas porque ele pega elementos extremamente conhecidos, mistura tudo com inteligência e entrega uma identidade própria que funciona muito melhor do que eu imaginava.

A história nos transporta para um Japão completamente diferente daquele que conhecemos. Um futuro distante onde a humanidade praticamente deixou de existir da forma como era conhecida e onde criaturas monstruosas dominam grande parte do planeta. Existe uma constante sensação de melancolia, principalmente por conta da trilha sonora que foca bastante em músicas com sonoridade triste.

Cada cidade abandonada, cada templo destruído, cada floresta que tomou conta das construções antigas transmite aquela impressão de que estamos caminhando sobre as ruínas de uma civilização que perdeu tudo. É um daqueles mundos que contam histórias sem precisar abrir uma única caixa de diálogo, e eu gosto muito quando um jogo faz isso. Nem tudo precisa ser explicado por texto ou por longas cutscenes. Às vezes basta olhar ao redor e perceber os arredores. Essa direção artística me lembrou bastante o que senti jogando Horizon Zero Dawn e Days Gone pela primeira vez. Aquela mistura entre beleza e tristeza, esperança e decadência. São jogos completamente diferentes, mas que compartilham essa capacidade de transformar o cenário em um personagem.

Se existe um motivo para eu lembrar desse jogo daqui alguns anos, esse motivo certamente será a protagonista, Emma é uma personagem extremamente humana, ela não está tentando ser a heroína perfeita. Não faz discursos grandiosos o tempo inteiro e nem precisa parecer invencível para conquistar o jogador, a força dela está justamente na vulnerabilidade. Ela sofre, hesita, questiona, erra… E isso faz com que tudo pareça muito mais verdadeiro. Mas existe outro personagem que merece exatamente o mesmo destaque: Koo, seu companheiro de quatro patas. Eu achava que ele seria apenas aquele mascote obrigatório que vários jogos colocam para gerar apelo emocional. Felizmente eu estava completamente enganado. Koo participa de praticamente tudo, da exploração, do combate, dos momentos dramáticos e interações simples.

A conexão entre Emma e Koo nunca parece artificial. Ela cresce naturalmente conforme a aventura avança, e em vários momentos eu me peguei sorrindo apenas observando a forma como os dois interagem, é um tipo de relação construída sem exageros, sem precisar ficar dizendo toda hora que existe amizade. Você simplesmente percebe. E quando um jogo consegue transmitir isso apenas através das ações dos personagens, significa que a narrativa está funcionando da forma mais delicada e sensível possível.

Hoje em dia é praticamente impossível criar um RPG de ação sem que apareçam comparações e Beast of Reincarnation certamente será comparado com vários gigantes, até porque os combates lembram bastante Sekiro em determinados momentos. Principalmente pela importância do tempo correto de defesa, contra-ataques e leitura dos movimentos dos inimigos. As batalhas contra criaturas enormes inevitavelmente fazem lembrar Monster Hunter, a ambientação melancólica remete bastante a NieR, enquanto a direção artística, em alguns momentos, parece beber da mesma fonte utilizada por Ghost of Tsushima, principalmente no uso da natureza como elemento visual dominante. Entretanto, há uma diferença muito importante: O jogo não tenta copiar nenhum deles.

Ele entende essas inspirações e monta uma identidade própria, porque referência boa não é copiar, é entender por que determinada ideia funciona e adaptá-la para sua própria visão.

Se alguém tivesse me mostrado algumas imagens do jogo sem dizer quem desenvolveu, dificilmente eu acertaria que era a GAME FREAK. Existe um salto técnico gigantesco na modelagem dos personagens, na iluminação, vegetação e efeitos climáticos. Tudo demonstra muito mais cuidado do que eu esperava, mas o verdadeiro destaque não está apenas na qualidade gráfica, está na direção de arte, até porque gráfico bonito envelhece, uma boa direção artística não. Existem cenários simplesmente memoráveis, montanhas cobertas por névoa, templos consumidos pela vegetação, campos gigantescos iluminados pelo pôr do sol e ruínas que contam histórias silenciosas. Várias vezes eu simplesmente parei de caminhar para observar o ambiente.

Talvez o aspecto que mais me surpreendeu tenha sido a jogabilidade, ela consegue encontrar um equilíbrio muito interessante entre desafio e diversão, os golpes possuem peso, as esquivas têm propósito, os contra-ataques são extremamente satisfatórios e existe uma sensação constante de evolução. Não apenas porque sua personagem fica mais forte, mas porque eu, como jogador, estava realmente aprendendo. No início eu errava praticamente todos os tempos de defesa. Algumas horas depois já conseguia antecipar ataques, administrar melhor minha resistência e criar estratégias diferentes para cada tipo de inimigo, é uma evolução orgânica, daquelas que fazem você perceber que melhorou sem nem notar. E isso é mérito de um excelente design de combate!

Outro aspecto que gostei bastante foi a exploração, que apesar do mapa ser relativamente amplo, ele não parece inflado apenas para aumentar artificialmente a duração da campanha, sempre existe alguma recompensa: Um equipamento novo, uma pequena história, um documento, um chefe opcional, uma criatura diferente ou simplesmente uma paisagem incrível. Isso incentiva naturalmente o jogador a sair do caminho principal. O jogo não te faz sentir aquela obrigação cansativa de explorar porque o jogo mandava, eu explorava porque queria descobrir o que existia logo ali na frente. Eu sei que essa diferença parece pequena, mas muda completamente a experiência.

Outro ponto que merece uma rasgação de elogios é a música, ela não tenta dominar todas as cenas. Em vários momentos existe apenas o som do vento, da chuva, dos passos ou dos animais. E justamente por causa desse silêncio, quando a trilha aparece, ela ganha muito mais impacto emocional. É uma escolha extremamente inteligente.

Claro que nenhum jogo é perfeito e Beast of Reincarnation também escorrega. Existem momentos em que o ritmo desacelera mais do que deveria, algumas áreas poderiam ser menores sem perder qualidade, determinadas missões secundárias parecem existir apenas para aumentar o tempo de campanha. E também senti falta de explicações mais claras sobre alguns sistemas de progressão. Algo que me incomoda, é quando preciso recorrer à tentativa e erro para entender mecânicas que poderiam ter sido apresentadas de forma mais natural. Outro pequeno problema aparece em certos inimigos comuns. Enquanto alguns confrontos são memoráveis, outros acabam repetindo padrões de comportamento muito rapidamente, não é algo que chega a cansar, mas eventualmente a sensação de repetição aparece, e também encontrei pequenas inconsistências na câmera durante alguns combates em espaços fechados. Nada que estrague a experiência, mas acontece e vale mencionar.

Para finalizar, preciso dizer que poucos jogos conseguem mudar completamente a expectativa que eu tinha antes de começar e Beast of Reincarnation conseguiu! Entrei esperando apenas mais um RPG competente e saí encontrando uma aventura que me surpreendeu pela qualidade técnica, pela direção artística, pelo combate extremamente sólido e, principalmente, pela construção emocional dos personagens: Emma é uma protagonista fácil de gostar e Koo é aquele companheiro que faz diferença em praticamente todos os momentos da jornada. Os dois carregam boa parte do peso emocional da narrativa e fazem isso com muita naturalidade e talvez o maior elogio que eu possa fazer seja justamente este: Um jogo de um gênero que normalmente não ocupa espaço entre os meus favoritos conseguiu me prender até os créditos finais sem que eu sentisse vontade de acelerar nada. Quando percebi que a história estava chegando ao fim, comecei a explorar mais devagar. Passei a prestar mais atenção na trilha sonora, nos cenários e nas conversas. Porque eu simplesmente não queria que aquela jornada acabasse tão cedo, e isso não acontece toda semana, nem todo mês. Na verdade, acontece muito pouco.

Por isso, considero Beast of Reincarnation uma das maiores surpresas que tive nos últimos anos. Ele pega referências extremamente fortes, entende por que elas funcionam e constrói algo com personalidade suficiente para caminhar com as próprias pernas.

É exatamente esse tipo de jogo que merece ser lembrado!

Veredito Gamers & Games:

Nota Final
9.7
/ 10

“Beast of Reincarnation surpreende pela excelente direção artística, combate extremamente satisfatório e uma narrativa sensível conduzida por Emma e Koo. Apesar de pequenas quedas de ritmo e sistemas que poderiam ser melhor explicados, entrega uma experiência memorável e se consolida como uma das maiores surpresas recentes do gênero.”

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