Analisado no PlayStation 5
Desenvolvido pela Emeteria e publicado pela New Tales, com participação da Com2uS Holdings na publicação, Fading Echo é aquele tipo de jogo que talvez passe totalmente despercebido no meio dos grandes lançamentos que estamos acompanhando agora em setembro, mas que merece um espaço na biblioteca de quem gosta de experiências com identidade própria. A aventura mistura ação, plataforma, puzzles e manipulação elemental em uma experiência que tem bastante personalidade, mesmo com alguns pequenos tropeços.
No jogo, acompanhamos ONE, uma jovem que acaba envolvida em uma situação muito maior do que imaginava. Em meio a um mundo desértico, ilhas flutuantes e uma realidade afetada pela corrupção conhecida como Paradoxo, a protagonista embarca em uma jornada que mistura descoberta, sobrevivência e busca por respostas. O que me agrada na narrativa é a maneira como ela apresenta seu universo sem transformar cada descoberta em uma palestra sobre a própria mitologia. Existe mistério, existe curiosidade e existe uma protagonista que carrega boa parte do carisma dessa experiência toda.
A história não é revolucionária e, em determinados momentos, senti que ela poderia aprofundar melhor algumas ideias e personagens. Ainda assim, funciona muito bem como combustível para a aventura. Não vou entrar em acontecimentos específicos, mas adianto que existe material suficiente para manter o interesse até o fim. A apresentação também ajuda. As cenas com enquadramentos inspirados em histórias em quadrinhos dão movimento aos diálogos e combinam com a personalidade mais descontraída de ONE. É uma escolha que diferencia Fading Echo de aventuras mais convencionais.
A jogabilidade é resumida em: água, pancadaria e criatividade. É aqui está o coração do jogo. ONE pode alternar entre sua forma humana e uma forma líquida, usando a água tanto para combater quanto para explorar e resolver enigmas. E não estamos falando de uma habilidade que fica esquecida depois das primeiras horas: a transformação é parte central da experiência. Na prática, essa mecânica permite criar situações interessantes, seja para alcançar plataformas, atravessar obstáculos, interagir com objetos ou enfrentar inimigos. A manipulação dos elementos e as reações em cadeia dão uma camada de experimentação ao combate que me lembrou, em alguns momentos, a liberdade de interação de Tears of the Kingdom, embora Fading Echo seja uma experiência bem mais linear e concisa.
Na movimentação e na estrutura de plataforma, também é possível encontrar aquela familiaridade gostosa de Kena: Bridge of Spirits, cenários estilizados e desafios que alternam exploração, combate e raciocínio. Não chega a ter a mesma profundidade do jogo mencionado em todos os aspectos, mas compartilha parte desse espírito. O combate é ágil e tem boas ideias. Alternar formas, usar habilidades e explorar as propriedades dos elementos deixa os confrontos mais interessantes do que um simples aperta-botão. O problema é que a variedade nem sempre acompanha o potencial da mecânica. Com o avanço da campanha, alguns encontros podem ficar repetitivos, e certos confrontos perdem parte da graça quando os inimigos deixam de surpreender. Outro ponto que merece atenção é a exploração. A estrutura das áreas pode dificultar a orientação, principalmente quando o jogo não deixa tão claro para onde seguir. Em alguns momentos, a vontade de explorar dá lugar àquela caminhada de quem já passou três vezes pelo mesmo lugar e começa a desconfiar da própria memória.
Visualmente, Fading Echo é muito bonito. A direção de arte aposta em cores vibrantes, cenários surreais e contrastes entre a beleza de Corel e os efeitos da corrupção que ameaça aquele mundo. O uso de cores quentes, os efeitos aquáticos e a composição dos ambientes ajudam a criar uma identidade visual consistente. Não é aquele jogo que tenta impressionar exclusivamente pelo realismo ou pela quantidade de detalhes na tela. Pra mim, o charme está na construção artística, na forma como os elementos se complementam e no visual que permanece reconhecível mesmo quando a tela está cheia de ação. A estética também conversa muito bem com as mecânicas. A água não parece um efeito colocado por cima do cenário: ela faz parte da linguagem visual e da própria identidade do jogo.
Existem, porém, algumas limitações na variedade visual de certas áreas. Em determinados trechos, a semelhança entre os ambientes acaba prejudicando a navegação e reduzindo aquela sensação de estar descobrindo algo novo. A parte sonora cumpre seu papel na construção da atmosfera, acompanhando os momentos de exploração e ação. Porém, na minha percepção, a trilha não alcança o mesmo destaque que a direção de arte e a jogabilidade. Ela funciona dentro da proposta, mas não foi o elemento que mais me agradou durante a minha experiência. Já a dublagem brasileira merece um parágrafo à parte. Carol Valença dá voz a ONE, enquanto Guilherme Briggs integra o elenco como Maddock. A localização em português é um dos grandes acertos da produção, trazendo personalidade aos diálogos e ajudando a aproximar o jogador dos personagens, delineando uma conexão mais genuína. É um daqueles casos em que o cuidado com a dublagem faz diferença real na experiência. E, para quem joga em português, é um motivo a mais para conhecer o título.
Fading Echo me conquistou principalmente por aquilo que muitos jogos acabam deixando de lado: uma ideia central interessante, uma identidade visual bem definida e mecânicas que conseguem fazer a aventura parecer diferente de tantas outras disponíveis no mercado. Claro que eu gostaria de uma exploração mais intuitiva, de combates com maior variedade e de uma história que aproveitasse melhor todo o potencial do universo apresentado. São pontos que impedem o jogo de alcançar um resultado ainda mais redondo, isto é, particularmente falando. Mas, sinceramente, essas limitações não apagam o que ele faz de bom. A experiência tem personalidade, diverte e mostra que um estúdio pode entregar algo memorável sem precisar competir com produções gigantescas em escala ou orçamento. Para quem curtiu o jogo Kena: Bridge of Spirits e/ou aventuras com mecânicas criativas, Fading Echo merece atenção. É uma experiência que eu recomendaria principalmente para quem gosta de explorar, experimentar e descobrir novas maneiras de interagir com o mundo do jogo. Não é uma aventura perfeita, mas é uma daquelas surpresas que me lembram por que gosto tanto de descobrir jogos fora do radar.
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Veredito Gamers & Games:
8.8
/ 10
“Fading Echo se destaca pela criatividade de suas mecânicas, direção de arte e excelente dublagem em português-BR. Apesar da navegação confusa, do combate repetitivo e de uma história que poderia ser mais profunda, a aventura tem personalidade e merece ser descoberta.”
