Versão Testada: PlayStation 5
Forever Ago
PlayStation 5, Xbox Series X|S, Nintendo Switch 2, PC
08/out./2026
Aventura
Third Shift – Annapurna Interactive
Existem jogos que querem impressionar pela grandiosidade, pela quantidade de coisas para fazer ou por sistemas cada vez mais complexos. Forever Ago segue justamente pelo caminho contrário. É uma experiência simples, contemplativa e, principalmente, emocional. E talvez seja justamente essa simplicidade que faça com que a jornada de Alfred e Audrey consiga tocar em assuntos que continuam na nossa cabeça mesmo depois de desligarmos o videogame.
Desenvolvido pela Third Shift e publicado pela Annapurna Interactive, Forever Ago coloca o jogador na pele de Alfred, um homem que decide pegar a estrada em busca de algo que vai muito além de simplesmente chegar a um destino. Durante essa viagem, ele conhece Audrey, e é na relação entre os dois que eu encontrei o verdadeiro coração do jogo. A narrativa é, sem dúvida, o maior destaque para mim. Não porque ela seja cheia de reviravoltas ou acontecimentos grandiosos, mas porque consegue construir seus momentos de maneira muito humana. Alfred carrega suas próprias dores, arrependimentos e memórias, enquanto Audrey traz uma perspectiva diferente para essa jornada. A relação entre os dois vai sendo construída aos poucos, através de conversas, pequenas situações e momentos aparentemente simples. E foi justamente nesse ponto que o jogo conseguiu me pegar.
Em determinados momentos, Forever Ago me fez pensar sobre como muitas vezes estamos tão presos aos nossos próprios problemas que esquecemos de olhar para as pessoas ao nosso redor. Também me fez refletir sobre arrependimento, perdas, envelhecimento, escolhas e, principalmente, sobre a importância de continuar vivendo mesmo quando determinadas coisas da nossa vida não podem mais ser mudadas. O apelo dramático funciona porque o jogo não tenta forçar emoção o tempo inteiro. Eu percebi que ele deixa os personagens respirarem, e com isso, a gente também respira. Algumas conversas parecem banais inicialmente, mas ganham outro peso conforme entendemos melhor quem Alfred é e o que ele está tentando enfrentar. É aquele tipo de história que pode fazer você terminar sua jogatina e continuar pensando nela enquanto faz outra coisa. E eu acho que esse é um dos maiores méritos de Forever Ago: ele não tenta simplesmente contar uma história triste. Ele usa essa história para mudar um pouco a nossa perspectiva sobre determinados assuntos da vida.
Visualmente, o jogo também acerta bastante. A direção de arte combina perfeitamente com essa proposta contemplativa. Os cenários têm uma aparência estilizada e agradável, e existe uma sensação quase de livro ilustrado em alguns momentos. Não é um jogo que precisa de realismo gráfico para transmitir beleza. A identidade visual trabalha junto com a narrativa para criar uma atmosfera tranquila, melancólica e, ao mesmo tempo, acolhedora. A trilha sonora segue exatamente essa mesma linha. É excelente e sabe quando aparecer. Em vez de simplesmente preencher o silêncio, a música é utilizada para reforçar determinados momentos e sentimentos. Em algumas situações, ela consegue fazer mais pela cena do que qualquer diálogo poderia fazer. Outro detalhe que gostei bastante foi a possibilidade de encontrar fotografias e memórias opcionais durante a jornada. São conteúdos que poderiam facilmente ser ignorados, mas que ajudam a complementar a experiência e aprofundar a percepção que temos daquele mundo e dos personagens. Na minha opinião, esses pequenos elementos funcionam justamente porque não parecem estar ali apenas para aumentar artificialmente o tempo de jogo.
Agora, para mim, se existe um ponto em que Forever Ago claramente ficou devendo, é na jogabilidade. Eu senti que a gameplay é extremamente simples. Na maior parte do tempo, estamos explorando, interagindo com objetos, conversando e avançando pela história. Eu não esperava que o jogo se transformasse em uma aventura cheia de sistemas complexos, porque isso provavelmente até prejudicaria sua proposta. Mas, em alguns momentos, senti falta de algo que desse mais dinâmica à experiência. Também tive alguns problemas com as interações. Existem situações em que o jogo não responde exatamente da maneira que eu esperava, ou exige que eu encontre o ponto específico para conseguir realizar determinada ação. São pequenos problemas, mas acabam quebrando um pouco o ritmo, principalmente quando estou completamente envolvido pela narrativa.
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E existe uma questão que me deixou bastante curioso: apesar de a proposta envolver uma viagem pela estrada, eu senti pouca sensação de road trip de fato. O conceito está presente na história e na estrutura da aventura, mas os deslocamentos não conseguem transmitir totalmente aquela sensação de estar realmente viajando, conhecendo lugares e simplesmente deixando a estrada levar você para algum lugar. Talvez eu tenha criado uma expectativa diferente por causa da própria premissa. Eu queria sentir mais aquela liberdade de estar dentro de uma viagem, observando paisagens, parando em lugares inesperados e descobrindo pequenas histórias pelo caminho. Forever Ago entrega parte disso, mas não tanto quanto eu gostaria e honestamente, quanto deveria. Também não vejo como seria interessante voltar ao jogo várias vezes depois de terminar. O conteúdo adicional é bastante limitado e o fator replay praticamente não existe. Depois de conhecer a história, não há uma quantidade muito grande de motivos para retornar. As fotografias e memórias opcionais ajudam nesse aspecto, mas não são suficientes para transformar a experiência em algo que eu queira revisitar constantemente.
Ainda assim, isso não diminui o impacto que a primeira jornada teve comigo. Forever Ago é daqueles jogos que não precisam de centenas de horas para deixar uma marca. Ele entende que algumas histórias funcionam melhor quando são curtas, diretas e focadas nos personagens. E, nesse caso, Alfred e Audrey carregam praticamente toda a experiência nas costas. O que mais ficou comigo foi justamente a forma como o jogo trata a vida. Ele fala sobre coisas que inevitavelmente fazem parte da nossa existência: perdas, decisões, arrependimentos, relações, envelhecimento e a necessidade de seguir em frente. E faz isso sem transformar tudo em um grande discurso.
No fim, a estrada de Alfred acaba sendo uma estrada muito mais interna do que física. Eu comecei Forever Ago esperando conhecer uma história sobre uma viagem. Terminei sentindo que tinha acompanhado duas pessoas tentando lidar com aquilo que carregavam dentro delas. E talvez seja por isso que a experiência funcione tão bem.
Não é um jogo perfeito. A simplicidade do gameplay, alguns problemas de interação, a pouca sensação de road trip e o baixo fator replay impedem que ele alcance um nível ainda maior. Mas, quando eu paro pra pensar naquilo que realmente vou lembrar daqui a algum tempo, provavelmente não serão essas limitações. Vou lembrar de Alfred e Audrey. Vou lembrar de alguns diálogos… E, principalmente, vou lembrar daquela sensação de que, às vezes, precisamos olhar para a nossa própria vida de outra maneira antes de perceber que ainda existe muita coisa pela frente.
Veredito Gamers & Games:
8.5
/ 10
Forever Ago entrega uma jornada emocional marcante, sustentada pela relação entre Alfred e Audrey, pela bela direção de arte e pela excelente trilha sonora. Apesar da jogabilidade simples, dos problemas de interação e da pouca sensação de road trip, é uma experiência que deixa reflexões sobre a vida mesmo depois de terminar.
