Analisado no Nintendo Switch 2
Yoshi and the Mysterious Book é provavelmente um dos jogos mais “seguros” que a Nintendo já colocou nas mãos dos jogadores. Em vez de seguir a fórmula clássica de plataforma com inimigos, buracos e game over, o jogo pega Yoshi, joga ele dentro de um livro falante, conhecido como Professor N. Igma e transforma tudo numa grande experiência de observação e experimentação. Sem timer, sem barra de vida, sem vidas extras e sem inimigos mortais.
Essa proposta pode estranhar quem entra esperando um “Yoshi’s Island 3.0”, com fases desafiadoras, inimigos icônicos e aquele equilíbrio clássico de Mario-like. Aqui o ritmo é outro: o jogo te solta em um mundo novo e basicamente diz “vai brincar e descobrir o que acontece se você mexer em tudo”. Quando essa ficha cai, Yoshi and the Mysterious Book começa a fazer muito mais sentido, principalmente se você se conectar com essa sensação de curiosidade infantil que ele tenta resgatar.
A narrativa é simples, mas simpática. O Professor N. Igma serve como guia, narrador e objetivo em forma de livro: ele apresenta os capítulos, comenta as descobertas, registra tudo como se você estivesse preenchendo uma enciclopédia viva. Não tem uma trama grandiosa, vilão complexo ou grande reviravolta; o arco principal é bem “Yoshi encontra criaturas, descobre coisas, ajuda o livro a se completar”.
Isso tem uma pegada de exploração, mas sem inimigos. Cada criatura que você encontra tem pequenos segredos: o que acontece se Yoshi engole? O sabor muda se você der uma pimenta antes? Dá para reviver um bichinho desidratado dando maçã? Será que ele reage se pularmos em cima dele? E se você carregar o animalzinho nas costas e colocar perto de outra coisa? O jogo transforma essas interações em micro-histórias: você não está “derrotando inimigos”, está aprendendo sobre o comportamento desses seres, quase como um experimento de biologia fofinho.
Um detalhe legal é que, ao terminar o “ciclo de pesquisa” de uma criatura, você precisa dar um nome para ela. O Professor N. Igma sugere um se você estiver sem inspiração, mas o ato de batizar reforça essa ideia de que você está ajudando a escrever aquele mundo, não só atravessando ele.
Não é o tipo de narrativa que vai fazer adulto chorar no sofá, mas funciona muito bem para o que se propõe: criar vínculo com as criaturas, valorizar a curiosidade e deixar tudo com cara de livro infantil interativo, daqueles que você folheia e quer ver “qual bicho vem na próxima página”.
A jogabilidade é onde o jogo mais quebra expectativa de quem vem de outros Yoshi. Tecnicamente ele é um plataforma 2D, mas na prática se comporta mais como um “mundo aberto, mas com foco em descobertas”.
Yoshi mantém vários movimentos clássicos: língua longa para engolir coisas, estoque de ovos para arremessar, Flutter Jump (aquele pulo planado) para alcançar plataformas mais altas, o famoso ground pound para esmagar objetos. A grande novidade é a mecânica de carregar criaturas e objetos nas costas, usando as habilidades delas para interagir com o cenário. Essa é a coluna vertebral de Yoshi and the Mysterious Book.
Cada capítulo do livro representa um bioma diferente, como praia com naufrágios, campo de insetos, áreas mais fantásticas, e dentro dele você tem criaturas específicas, cada qual com uma mecânica própria. Um sapo com boca gigante pode criar bolhas de sabão gigantes que viram plataformas flutuantes, e o nível em torno dele é desenhado verticalmente, para você subir usando essas bolhas. Uma planta carnívora faminta come borboletas, insetos, nuvens… dependendo do que ela engole, o comportamento muda, e isso afeta o que você consegue fazer com ela. Um bicho que fica cada vez mais vermelho quanto mais tempo você carrega, até explodir e abrir caminho.
O mais bacana é que o jogo não te entrega tudo mastigado. Ele não solta um tutorial gigante explicando o que cada criatura faz. A ideia é justamente o contrário: “e se eu jogar esse sapo dentro da água? E se eu colocar pimenta na planta? E se eu deixar esse bicho inflar perto daquele obstáculo?”. A graça do game está em testar hipóteses e ver o que acontece, recebendo Estrelas como recompensa sempre que você descobre algo relevante.
As Estrelas funcionam como “XP de exploração”: cada descoberta gera algumas, e acumular uma certa quantidade desbloqueia novos capítulos. Não se preocupe, o jogo é bem generoso nisso, crianças vão abrir muita coisa só brincando sem objetivo claro, e adultos que forem atrás de 100% vão ter a meta de “limpar” cada criatura e cada cenário.
Importante ressaltar: não há falha no sentido tradicional. Não tem vida, não tem dano, não tem morte. Se uma criatura cai num lugar ruim, você basicamente reseta a situação, tenta de novo, segue em frente. Isso faz o jogo ser perfeito para crianças pequenas, que podem explorar sem medo de frustração, mas também faz com que muitos adultos sintam que falta “peso” nas interações. O único desafio real, para jogadores experientes, está em encontrar todas as variações e reações possíveis, e isso depende mais de paciência e criatividade do que de habilidade com controle.
Nem todos os níveis e criaturas funcionam igualmente bem. Alguns são super inspirados e divertidos de experimentar, como a planta carnívora que mencionei anteriormente. Outros são mais esquecíveis, como as gaivotas atrapalhadas, que soam genéricas e meio chatas de mexer. Felizmente, como não há progressão linear rígida, você pode simplesmente pular de um capítulo para outro sem se sentir preso por um nível menos inspirado.
Um ponto onde o design escorrega é na clareza de progressão das descobertas. O jogo te provoca mostrando que existe ainda tem algo que você não viu em determinado bicho, e você pode gastar fichas para receber dicas ou previsões, mas não há um indicador claro de quantas descobertas faltam para cada criatura. É estranho, porque essa é literalmente a premissa do jogo, completar um livro de pesquisa e uma contagem transparente teria ajudado bastante quem gosta de terminar tudo.
Apesar disso, para o público-alvo principal (crianças e famílias), o loop básico funciona muito bem: entre, brinque, descubra, ganhe Estrelas, abra outro capítulo, repita. Para adultos, é um jogo que funciona melhor em sessões curtas e com a mentalidade certa: entrar pelo prazer de mexer no sistema, não pela busca de um desafio tradicional.
Visualmente, Yoshi and the Mysterious Book é um espetáculo bem particular. Em vez da estética de artesanato de Wolly World e Crafted World, aqui o jogo vai para um visual de caderno de rascunho: ou seja, tudo parece desenho pintado à mão, com traços visíveis, cores aquareladas e animações que lembram levemente stop motion. Em Unreal Engine 5 isso ganha uma nitidez e fluidez bem impressionantes para o hardware do Switch 2.
O design do Professor N. Igma, em especial, é excelente: um livro com bigode, monoclo arco-íris e capas desgastadas que parece ter saído direto de uma animação daquelas bem caprichadas. As páginas em que as descobertas são registradas são outro acerto: cada criatura ganha um visual com pequenos desenhos e notas, reforçando essa vibe de diário ilustrado.
Nem todo mundo vai gostar do estilo, já que a franquia trouxe fãs de look de lã ou de papelão dos jogos anteriores, mas dá para dizer tranquilo que, em termos de consistência artística, o jogo é muito bem-feito. É um mundo que parece livro infantil animado, e isso combina muito com a proposta do game.
Em relação ao som, o pacote é mais irregular. A trilha cumpre seu papel, mas é repetitiva e menos memorável do que poderia ser, principalmente considerando o nível visual. Em longas sessões, algumas faixas começam a cansar. E tem o clássico “problema Yoshi”: o som do salto, aquele “triiiiiiiim” constante quando você plana, pode te deixar alguns jogadores meio maluco depois de um tempo. Para crianças, ok; para adultos que jogam por várias horas seguidas, é algo que talvez você queira baixar no volume.
Tecnicamente, o jogo é estável. Sem combate pesado ou sistemas complexos, nada aqui parece empurrar o hardware ao limite, o que ajuda a manter frame rate suave e tempos de carregamento aceitáveis. Como experiência familiar, é aquele tipo de game que você liga, entrega o Joy-Con para uma criança e sabe que não vai ter bug bizarro para estragar o momento. E eu sou prova viva disso.
Yoshi and the Mysterious Book é um daqueles jogos que você precisa avaliar pensando primeiro em “para quem ele foi feito”. Se você olha com a lente de “plataforma Nintendo tradicional”, vai bater na parede: sem dificuldade, sem morte, sem inimigos, sem meta de habilidade. Nesse cenário, parece um jogo raso, repetitivo e pouco engajante para adultos.
Mas se você posiciona o jogo onde ele quer estar realmente, como um playground de descoberta para crianças e para quem curte exploração sem risco, a conversa muda. A ideia de encarar cada fase como um “experimento”, testar reações, anotar resultados e ver o livro ganhando vida é genuinamente encantadora. O fato de o jogo não te pegar pela mão com tutoriais gigantes e, ao mesmo tempo, não te punir por errar, é um equilíbrio curioso e bem intencional.
Entre todos os títulos “family friendly” da Nintendo, esse é um dos mais extremos no sentido de tirar as barreiras tradicionais. Isso vai dividir muito os jogadores com certeza: tem quem veja como genial, tem quem veja como “mais um jogo sem desafios”. A verdade fica no meio: como produto, ele cumpre muito bem o papel de introduzir crianças muito novas à lógica de experimentação em jogos; como experiência para veteranos, ele é mais uma experiência do que um jogo para platinar.
Em relação custo–benefício, tudo depende de quem vai jogar. Para famílias com crianças pequenas, especialmente aquelas que ainda se frustram fácil com game over, Yoshi and the Mysterious Book é perfeito: bonito, seguro, criativo, bom para jogar junto no sofá sem estresse. Para adultos jogando sozinhos, o apelo é bem mais limitado e se apoia 100% na curiosidade: “quais criaturas esse jogo inventou? O que acontece se eu tentar X ou Y?”. Dá para tirar boas horas de diversão disso, mas não é o tipo de jogo que vai te prender por profundidade mecânica.
Yoshi and the Mysterious Book é uma aposta bem consciente da Nintendo abrindo mão de praticamente todo o risco e desafio para abraçar a exploração livre e a curiosidade infantil. Como jogo de plataforma tradicional, ele é quase inexistente; como experiência de descobrir bichinhos em um livro mágico, ele funciona muito bem, especialmente para o público mais jovem.
Para quem entra com a expectativa certa, é difícil não se deixar levar pelo charme das criaturas, pela sensação de preencher as páginas do Professor N. Igma e pela estética de um caderno de rascunho animado. Para quem vinha sedento por um novo Yoshi realmente desafiador, é fácil sair com a sensação de que faltou algo.
Essa análise foi produzida através de cópia digital do jogo cedida pela Nintendo Brasil.
Veredito Gamers & Games
7.5
/ 10
“Yoshi and the Mysterious Book abandona quase todos os elementos tradicionais da série para entregar uma experiência focada em exploração, curiosidade e descoberta. A proposta funciona muito bem para crianças e famílias, mas pode parecer simples demais para quem busca desafio e profundidade.”
