
Denshattack! – Uma carta de amor à era Dreamcast, movida a trilhos, velocidade e muito estilo | Análise
Analisado no PlayStation 5
Poucos jogos conseguem vender uma ideia absurda e, ainda assim, fazer você acreditar nela cinco minutos depois. Denshattack! é exatamente esse tipo de experiência. A premissa de controlar um trem capaz de derrapar, fazer manobras, deslizar em paredes e executar combos no nível de Tony Hawk parece piada quando você lê (eu mesmo nem acredito que escrevi isso). Mas basta terminar a primeira fase para perceber que a proposta funciona melhor do que deveria. O jogo foi criado pelo estúdio espanhol Undercoders e publicado pela Fireshine Games, podendo ser acessado no PlayStation 5, Xbox Series X|S (disponível no Game Pass), Nintendo Switch 2 e PCs.
O que mais me chamou atenção foi como o jogo abraça o exagero sem nunca pedir licença ou desculpas por isso. Ele não tenta ser um simulador ferroviário, tampouco busca qualquer tipo de realismo. É um arcade puro, construído em cima da regra do “quanto mais absurdo, melhor”. E isso fica evidente desde os primeiros minutos. Visualmente, Denshattack! parece uma cápsula do tempo que saiu diretamente da geração Dreamcast. O cel shading remete imediatamente a clássicos como Jet Set Radio, enquanto a direção de arte mistura cultura urbana, neon, mangá e um Japão estilizado que parece existir apenas para servir de palco às próximas manobras. Há uma personalidade enorme em cada cenário, desde grandes centros urbanos até áreas rurais, vulcões e ambientes completamente fora da curva. É um daqueles jogos em que você frequentemente deixa de olhar para a pista apenas para admirar o caos acontecendo ao redor.
Mas o grande mérito está na jogabilidade. A comparação com Tony Hawk é inevitável, porém ela explica apenas metade dessa experiência. Existe também muito de Sonic, de Jet Set Radio, de Trials e até de jogos de ritmo. Tudo gira em torno da velocidade, da acurácia e da capacidade de transformar cada curva em uma oportunidade para aumentar sua pontuação. Derrapar na hora certa gera impulso, encaixar manobras mantém o combo vivo, encontrar rotas alternativas rende pontuações maiores e, aos poucos, você percebe que terminar uma fase deixa de ser o objetivo principal. O verdadeiro desafio passa a ser dominá-la completamente, como se você soubesse exatamente o que fazer, quando fazer e porque fazer. Esse talvez seja o aspecto que mais gostei.
A primeira conclusão do jogo é apenas o começo. Conforme novas mecânicas aparecem: wall ride, inversão de gravidade, desvios de risco, sistemas de combo, desafios opcionais e chefes cada vez mais criativos, o jogo muda constantemente sem perder seu ritmo frenético. Poucos indies recentes conseguem introduzir tantas ideias diferentes sem parecer um amontoado de sistemas desconexos. Aqui, quase tudo conversa entre si e faz sentido. Os chefes também merecem destaque. Eles fogem completamente do convencional e transformam corridas em verdadeiros espetáculos. Não são apenas testes de reflexo, exigem domínio das mecânicas aprendidas durante as fases anteriores e conseguem entregar momentos memoráveis justamente por fugir da fórmula tradicional de plataformas.
Um outro ponto que merece aplausos de pé é a trilha sonora. É muito difícil encontrar um jogo independente que trate a música como parte fundamental da experiência. Denshattack! faz exatamente isso. A mistura entre synth, funk eletrônico, punk, rock, breakbeat e influências do universo de Jet Set Radio cria uma identidade sonora extremamente forte. Cada fase possui sua própria faixa, e dificilmente alguma delas parece deslocada. Não é exagero dizer que há momentos em que a música praticamente dita o ritmo da jogabilidade. Depois de algumas horas, certas faixas simplesmente ficam na cabeça e você corre pro Spotify e passa a ouvir a trilha sonora do game durante seu treino na academia. Bom não de se esperar menos de Tee Lopes (Sonic Mania), Sean Bialo (Mighty Morphin Power Rangers: Rita’s Rewind) e Andrew One (TMNT: Shredder’s Revenge), isso sem contar com a participação do mestre da SEGA, Takenobu Mitsuyoshi (Daytona USA) e do ex Nintendo, Ryo Nagamatsu (Splatoon 3). Tecnicamente, também impressiona. A sensação de velocidade é excelente, os controles respondem de maneira imediata e o desempenho permanece consistente mesmo quando a tela vira um verdadeiro carnaval de partículas, explosões, trilhos, efeitos e elementos de interface, quase que poluindo todos os campos de visão.
Denshattack! não é perfeito. Existe uma clara tendência ao excesso. Em determinados momentos acontece tanta coisa simultaneamente que a leitura visual fica comprometida. Obstáculos, efeitos de velocidade, explosões, indicadores de combo e elementos do cenário disputam sua atenção ao mesmo tempo. Em fases mais avançadas isso pode gerar algumas mortes que parecem mais fruto da poluição visual do que de erro do jogador. Outro ponto discutível está na curva de aprendizado. Embora os comandos básicos sejam simples, dominar todas as mecânicas leva tempo. Para quem procura apenas uma aventura casual, a obsessão por pontuação, otimização de rotas e sistemas de risco pode não fazer muito sentido. Também senti que a narrativa acaba servindo apenas como pano de fundo. Os personagens possuem carisma e o universo tem personalidade, mas a história dificilmente se torna o motivo pelo qual você continua jogando. Felizmente, o gameplay segura toda a experiência.
No fim das contas, Denshattack! é aquele tipo de jogo que parece ter sido desenvolvido por pessoas completamente apaixonadas por videogames dos anos 2000. Ele pega referências extremamente claras: Jet Set Radio, Sonic, Tony Hawk, Crazy Taxi e transforma tudo em algo surpreendentemente próprio. Não é um jogo que busca agradar todo mundo. É barulhento, exagerado, veloz e, às vezes, beira o caótico. Mas justamente por abraçar essa identidade sem medo, acaba entregando uma das experiências arcade mais criativas dos últimos anos. É impossível não terminar uma fase pensando: “só mais uma tentativa para melhorar minha pontuação”.
E quando um jogo desperta esse sentimento, significa que acertou exatamente onde deveria.
Veredito Gamers & Games:
9.3
/ 10
“Denshattack! entrega uma experiência arcade criativa, veloz e cheia de personalidade, com excelente jogabilidade e trilha sonora. A poluição visual, a curva de aprendizado e a narrativa são seus principais pontos de atenção.”










