Versão Testada: PlayStation 5
Valor Mortis
PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC
13/out./2026
Ação
One More Level – Lyrical Games
O gênero soulslike cresceu tanto nos últimos anos que encontrar maneiras realmente diferentes de utilizar sua fórmula passou a ser uma tarefa complicada. Valor Mortis, novo jogo da One More Level, estúdio responsável por Ghostrunner, tenta resolver esse problema mudando uma das características mais básicas do gênero: a perspectiva.
Afinal, aqui, toda a aventura acontece em primeira pessoa.
Lançado em 13 de outubro de 2026 para PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC, Valor Mortis mistura combate corpo a corpo, armas de fogo, poderes sobrenaturais, exploração e elementos de Metroidvania dentro de uma versão alternativa e macabra das Guerras Napoleônicas.
E apesar de nem todas as ideias funcionarem perfeitamente, existe personalidade suficiente para impedir que o jogo pareça apenas mais uma tentativa de reproduzir Dark Souls.
O jogador controla William, soldado da Grande Armée que retorna misteriosamente dos mortos após ter servido aos exércitos de Napoleão.
O problema é que a Europa para a qual ele retorna está completamente diferente.
Uma misteriosa praga transformou soldados e habitantes em criaturas deformadas, enquanto o próprio William descobre que sua ressurreição também lhe concedeu habilidades sobrenaturais. A partir daí, começa uma investigação sobre a origem da doença, sua própria condição e acontecimentos envolvendo Napoleão e seu exército.
A ambientação é facilmente um dos melhores aspectos de Valor Mortis.
Campos de batalha repletos de corpos, vilarejos destruídos, florestas, minas, fortalezas e antigas instalações militares criam uma Europa constantemente decadente.
Existe uma interessante mistura entre guerra, horror corporal e fantasia.
A utilização do período napoleônico também ajuda bastante. Soulslikes normalmente preferem fantasia medieval ou mundos completamente fictícios, então encontrar soldados, mosquetes, sabres e uniformes do século XIX ao lado de criaturas deformadas oferece uma identidade visual imediatamente reconhecível. Até porque não existem muitos jogos deste período na indústria.
Em relação a história. Valor Mortis apresenta uma premissa interessante, mas não consegue acompanhar a força de sua própria proposta. Existem bons acontecimentos e alguns personagens curiosos, porém a narrativa demora para desenvolver seus principais mistérios e parte dos diálogos perde força durante a campanha. A sensação é que o mundo de Valor Mortis frequentemente é mais interessante do que a história contada dentro dele.
Apesar disso, para os interessados, o game consegue sim trazer um tom misterioso muito curioso no ar, e sanar sua curiosidade lendo diálogos, documentos e arquivos pode ser um dos aspectos interessantes do jogo para aquele tipo de jogador que busca entender mais sobre o que de fato está acontecendo no universo apresentado pelo jogo, e não simplesmente matar tudo que entra em seu caminho.
Se existe um elemento capaz de carregar praticamente toda a experiência, é o combate.
Valor Mortis utiliza uma combinação de ataques corpo a corpo, armas de fogo e poderes chamados Transmutações.
William pode utilizar sabres e outras armas em uma mão enquanto dispara uma pistola ou utiliza habilidades sobrenaturais com a outra. Combinação essa que imediatamente lembra BioShock, mas aplicada dentro de uma estrutura soulslike, com o sistema de parry sendo uma das mecânicas mais importantes do game.
Defender um ataque no momento correto permite quebrar o ritmo do inimigo e responder com golpes extremamente satisfatórios. A perspectiva em primeira pessoa deixa esses confrontos muito mais próximos e violentos, dando bastante peso para espadas, tiros e execuções.
Quando tudo funciona corretamente, Valor Mortis apresenta alguns dos combates corpo a corpo em primeira pessoa bem satisfatórios e divertidos, sendo o grande ponto alto do jogo.
Armas diferentes também possuem melhorias próprias, enquanto Catalisadores obtidos durante a exploração podem ser utilizados para desenvolver William. Como esperado em um soulslike, morrer significa deixar recursos para trás e tentar recuperá-los posteriormente faz parte da jornada do jogador.
Existem habilidades interessantes e algumas possibilidades de especialização, porém o jogo não possui a mesma liberdade de criação de builds encontrada nos maiores representantes do gênero. Conforme a campanha avança, algumas escolhas também começam a parecer muito mais úteis que outras.
Ainda assim, o combate básico é tão satisfatório que essa limitação dificilmente estraga a experiência.
Outro grande acerto está no level design.
Valor Mortis não possui um grande mundo aberto. Em vez disso, apresenta áreas relativamente lineares com diversos caminhos secundários, atalhos, segredos e locais que somente podem ser acessados depois de adquirir novas habilidades. É aqui que aparecem seus elementos de Metroidvania.
Conforme William melhora sua mobilidade, lugares anteriormente inacessíveis passam a poder ser explorados. Voltar para áreas antigas pode revelar equipamentos, melhorias e missões que estavam escondidas anteriormente. Os mapas frequentemente se conectam através de atalhos, evitando caminhadas excessivamente longas depois de morrer.
E, assim como semelhantes do gênero, Valor Mortis possui um sistema de checkpoint. No caso do game, as lanternas funcionam como pontos de descanso e viagem rápida, restaurando recursos e trazendo inimigos derrotados de volta. Essa estrutura oferece uma boa sensação de descoberta sem transformar a navegação em algo cansativo.
O problema aparece nos momentos em que o jogo tenta utilizar demais a experiência adquirida pela One More Level com Ghostrunner. Existem sequências de parkour envolvendo saltos, movimentação rápida e obstáculos. Algumas são divertidas e oferecem uma boa mudança de ritmo. Outras exigem movimentos extremamente precisos e acabam parecendo deslocadas dentro de um soulslike, principalmente quando um erro significa repetir toda uma sequência. Aspecto que com certeza pode desagradar uma grande parte de fãs que não curtem esse tipo de mecânica.
Os inimigos conseguem causar uma ótima primeira impressão. Soldados napoleônicos deformados pela praga possuem designs grotescos, enquanto criaturas maiores misturam elementos humanos e monstruosos de maneira bastante desconfortável.
O problema é que a campanha não apresenta variedade suficiente para sustentar todo o seu tamanho. Versões diferentes dos mesmos tipos de inimigos começam a aparecer com frequência e alguns confrontos deixam de surpreender depois das primeiras horas.
Os chefes também apresentam qualidade irregular. Existem boas ideias e confrontos que utilizam muito bem o sistema de parry, mas nem todos possuem o mesmo nível de desafio ou criatividade. Curiosamente, o primeiro grande chefe é frequentemente apontado como um dos maiores testes de habilidade, enquanto alguns encontros posteriores acabam sendo bem mais tranquilos.
Em determinados momentos, a dificuldade também parece artificial. Ataques atrasados, emboscadas e inimigos posicionados para surpreender podem causar mortes que parecem menos relacionadas à habilidade do jogador e mais ao desconhecimento daquela situação.
O jogo recebeu posteriormente ajustes justamente para melhorar hitboxes e janelas de dano, mostrando que parte dessas reclamações possuía fundamento.
Visualmente, Valor Mortis possui momentos excelentes.
A direção artística consegue transformar as Guerras Napoleônicas em algo quase infernal. Cenários queimados, corpos espalhados e construções destruídas trabalham muito bem ao lado dos monstros e efeitos sobrenaturais.
A iluminação também ajuda bastante na construção da atmosfera, com cenários catastróficos que contribuem para a experiência que o jogo quer te passar.
Entretanto, olhando mais de perto, algumas limitações aparecem, como texturas que possuem qualidade irregular ou certas animações faciais são estranhas demais. É um jogo no qual a direção artística impressiona mais que a fidelidade gráfica. Isso não necessariamente é um problema, afinal o game não se propunha e ser um grande pilar de gráficos, porém, algumas texturas mal renderizadas podem incomodar alguns jogadores mais atentos.
A parte sonora segue uma lógica parecida. Golpes, tiros e poderes possuem bom impacto e ajudam muito durante os combates, mas a trilha sonora raramente apresenta a mesma personalidade do mundo visual. Ela funciona, porém dificilmente será um dos elementos mais lembrados após terminar a campanha.
Já em relação a desempenho, no PS5 tradicional, registramos algumas quedas de desempenho e pequenos engasgos principalmente utilizando o modo de 60 quadros por segundo, além de alguns crashes e glitches visuais. Porém, na versão de 30 FPS, essa queda não acontecia e nada parecia sair da normalidade, sendo a versão com melhor desempenho do jogo.
Valor Mortis não reinventa completamente o soulslike. Lanternas funcionam como fogueiras, inimigos retornam depois do descanso, recursos são perdidos após a morte e grande parte da progressão segue ideias bastante conhecidas.
Mas existe uma diferença entre utilizar sistemas conhecidos e simplesmente copiá-los. A perspectiva em primeira pessoa muda bastante a sensação dos confrontos, enquanto armas de fogo, Transmutações e movimentação criam uma experiência que lembra Dark Souls, BioShock, Dishonored e Ghostrunner sem parecer exatamente igual a nenhum deles.
É um mundo estranho, brutal e visualmente marcante que merece ser explorado novamente caso a One More Level decida continuar a franquia. O jogo poderia utilizar mais inimigos, chefes mais consistentes, melhores opções de construção de personagem e um pouco mais de cuidado técnico.
Mesmo assim, seus acertos são importantes e se sobrepõem aos seus pequenos erros.
Quando William está segurando um sabre em uma mão, preparando uma habilidade sobrenatural na outra e esperando o instante perfeito para realizar um parry contra uma criatura deformada em meio a um campo de batalha coberto de cadáveres, Valor Mortis encontra exatamente aquilo que precisava: uma identidade própria em um mercado tão saturado.
Veredito Gamers & Games:
8.0
/ 10
Valor Mortis encontra sua identidade em um combate brutal e satisfatório em primeira pessoa, acompanhado de uma ambientação napoleônica marcante e exploração envolvente. Apesar dos problemas de variedade, progressão e desempenho, entrega uma experiência soulslike bastante divertida e diferenciada.
