
Mafia: The Old Country – Entre tradição e ação em uma Sicília de cinema | Análise
Narrativa intensa e ambientação imersiva são o ponto forte do novo Mafia.
Analisado no Xbox Series X
Vamos ser sinceros: a franquia Mafia sempre teve aquela vibe de poder, drama e ação no estilo máfia-napolitana que faz a gente se sentir como no filme “O Poderoso Chefão”. Quando Mafia: The Old Country foi anunciado, com certeza ficou no ar a pergunta de um milhão de dólares: será que o novo título conseguiria equilibrar uma narrativa linear pesada e original com elementos de mundo aberto, sem perder a identidade da série? É o que vamos descobrir.

Bom, aqui, a proposta é bem clara: levar o jogador direto para o coração da Sicília no início do século XX, usando Enzo Favara, um cara comum largado pelo próprio pai para trabalhar como quase escravo em uma mina. Podemos dizer que seu começo não tem nenhum glamour… Enzo só queria sobreviver, mas rapidamente a vida muda, um plano de fuga vira uma verdadeira entrada no universo mafioso. Daí, o game parte para uma mistura de ação roteirizada com pequenas fatias de liberdade.
Tenho que ser muito sincero, a primeira coisa que chama a atenção em Mafia: The Old Country, é que tem algo de estranho. Ao mesmo tempo que tem aquele mundão para ser explorado, ele não pede que o jogador se perca em atividades secundárias infinitas. Ele quer, na verdade, contar uma história e, olha, isso provoca uma sensação que muitos títulos hoje evitam por medo de serem classificados como “lineares”. Com uma ambientação absurda de bonita e um storytelling digno de uma série de streaming, o game começa devagar, mas não demora pra mostrar a que veio.

Como dissemos antes, o jogo tem todos o jeitão de um filme. A trama de Mafia: The Old Country é daquelas que aposta tudo em personagens carismáticos, intrigas familiares e aquele senso forte de lealdade (ou traição, dependendo muito de quem está segurando a faca). Você vive os primeiros dias na pele de Enzo, suando horrores na mineração, só para depois vermos sua vida cruzar com a do enigmático Don Torrisi, o chefão que acaba enxergando potencial em uma pessoa que nem sabia que tinha um futuro.
E tudo acaba acontecendo rapidamente, e do nada, Enzo passa de escravo a soldado da máfia, ganhando relevância pouco a pouco dentro dos muros do vinhedo da família Torrisi. Aos poucos, a rotina de Enzo, que era apenas de recolher fezes no estábulo, colher uvas e participar de pequenas missões, dá lugar a golpes mais elaborados, assassinatos pontuais e infiltrações perigosas. Na contramão dos heróis “invencíveis”, o protagonista é bem humano. O desenvolvimento dele é natural, assim como as relações com outros personagens como Gaetano (o seu fiel parceiro), Cesare (aquele sobrinho ambicioso do chefão) e Isabella (filha de Don Torrisi e aquele par romântico discriminado pela tradição).

Pois bem, a história não foge do padrão das que encontramos em filmes de máfia, mas isso não é totalmente um demérito. O jogo entrega momentos cinematográficos, como uma fuga desesperada da mina, festas regadas a vinho e confrontos sangrentos que lembram filmes como “O Poderoso Chefão” como citei. Só que ele peca um pouco na ousadia: tirando algumas boas cenas e diálogos afiados, faltou um toque de imprevisibilidade. Certos “saltos no tempo” servem para acelerar a narrativa, mas raramente surpreendem. Mesmo assim, não tem com negar que dá para sentir, de verdade, o cheiro da terra, o calor dos conflitos internos e a tensão de uma família onde lealdade vale mais que ouro.

Aqui está, com certeza, o ponto mais controverso do game: Mafia: The Old Country não é aquele mundo aberto tradicional como vemos em outros jogos. Ele é mais um híbrido, um “semi-aberto” que privilegia a narrativa acima de uma liberdade total do jogador. Tem espaço para explorar, mas o conteúdo além da campanha é bem limitado, servindo basicamente para pegar colecionáveis, encontrar melhorias de armas ou alguns segredos, mas nada além. Outro ponto negativo, é que o ritmo é deliberadamente menor do que muita gente esperava, então não vai esperando side quests em volume de RPG ou um universo dinâmico tipo GTA. Não encontrará nada disso.
A progressão é bem simples, focada, como já falamos, na história e na subida de Enzo no comando da máfia local. Missões que começam como tutoriais (que são bem óbvias e precisam ser seguidas à risca para terminar) servem para ensinar mecânicas de stealth, combate corpo a corpo, tiroteio, como pilotar um carro e cavalgar um cavalo. Gostei muito das partes stealth, pois é gostoso jogar garrafas para distrair guardas, pegar faca para ataques letais ou só enforcar alguém pra não chamar atenção, tudo isso em mapas muito bem desenhados, onde o único senão são as poucas rotas alternativas reais.

Os combates são o grande destaque: tiroteios são rápidos, várias alternativas de armas (pistolas, rifles, espingardas), o cover funciona bem, e os controles respondem rápido e preciso. Já as lutas de faca não podemos dizer o mesmo, pois existem aos montes. Tem QTE, tentativas de parry, mas depois do terceiro ou quarto duelo, vira repetitivo demais, quase um mini-jogo obrigatório.

Outro ponto positivo: dirigir (ou cavalgar dependendo da situação) pela Sicília nunca é só um “vai do ponto A ao B”. O visual transforma qualquer viagem num passeio turístico, ainda que o mundo não tenha tanto conteúdo interativo como já disse. E para quem gosta de colecionar, há moedas, jornais, estatuetas de raposa e relíquias religiosas que rendem upgrades, bônus, vantagens ou até dinheiro extra pra comprar armas e customizar veículos.

Se tem algo que Mafia: The Old Country sabe fazer é criar atmosfera. Os gráficos impressionam, não pelo realismo fotográfico, mas pelo cuidado com texturas, iluminação, arquitetura típica siciliana e detalhes que saltam aos olhos: as praças cheias, o vinhedo sob o sol, mercados caóticos, estradas de terra, pequenas cidades e até a expressão dos NPCs. Tudo isso deixa o jogador dentro daquele universo, quase sentindo o cheirinho do lugar.
A performance, ao menos Xbox Series, onde jogamos, é bem sólida, com raríssimas quedas de frame. Há duas opções, o Modo Qualidade, onde temos uma maior resolução, mas com 30 fps ou o Modo Desempenho, onde a resolução é de 1080p com 60 fps, onde eu aconselho jogar. Outro detalhe chato: os loads são demorados, principalmente se precisar repetir missões. Então paciência.

Já a trilha sonora é simplesmente perfeita. Músicas regionais italianas, acordes de suspense na hora das missões, e momentos de silêncio que aumentam o impacto dos diálogos. As músicas ambientam e elevam o drama. Somado a isso, a dublagem está impecável, seja em inglês ou italiano, a emoção, os xingamentos e a postura de cada personagem refletem bem seus papéis. Bom salientar que não há dublagem em português, mas as legendas são precisas e disponíveis sim em PT-BR, facilitando pra quem prefere jogar na nossa língua.
O design de som é igualmente competente, com efeitos de armas, passos e ambiente que realmente complementam a experiência. O barulho do mercado, o relincho dos cavalos, o disparo seco das pistolas… tudo isso mantém a imersão. Se há aqui uma pequena observação, senti que poderiam ter tido mais diálogos entre os NPCs durante o mundo aberto, o que ajudaria e muito em dar aquela sensação de cidade viva.

Se você está pensando em pegar Mafia: The Old Country, saiba que ele tem méritos inegáveis, abraçando uma abordagem mais focada, priorizando narrativa e ambientação, e conseguindo entregar um dos mundos mais bonitos e “vivos” (ainda que não totalmente interativos, é bom que se diga) da franquia. Ao mesmo tempo, parece que a opção de não abandonar de vez as raízes de mundo aberto, ficando numa zona de “meio-termo” pode dividir opiniões, o que foi o meu caso.
Se comparado a outros títulos de ação linear, como Uncharted ou L.A. Noire por exemplo, percebemos que ele é mais cadenciado, menos grandioso em termos de missões e sem aquela sensação de que em “toda esquina tem uma surpresa”. Mas calma, ele se destaca e muito pelo cuidado no visual, pelo roteiro redondinho e pelo peso dramático dado aos personagens — mesmo quando as missões são bem previsíveis.

Eu acredito que o custo-benefício do jogo é bom. Ele tem uma campanha principal entre 10 e 15 horas, mas uma boa qualidade de produção. Dá para explorar o mapa após terminar, porém o conteúdo fora da campanha é restrito (lembrando que ele nunca vai ser um sandbox cheio de novidades).
Por isso, saiba que Mafia: The Old Country foi feito para quem curte histórias bem contadas, sequências de ação variadas (mesmo que nada inovadoras), um contexto cultural forte e detesta “encheção de linguiça”. Já quem procura um mundo aberto de verdade, ultra vivo e lotado de coisas para fazer, com certeza vai se decepcionar bastante. Inova? Não muito, mas refina o que a franquia sempre fez bem. É um grande exemplo de jogo “honesto”, competente, envolvente e direto no ponto, mas raramente genial.

Mafia: The Old Country é uma experiência consistente, que respeita o legado da franquia enquanto acerta em cheio na imersão, trilha e ambientação. Falta inovações em alguns aspectos, e, sinceramente, aquele mundo semiaberto podia ousar mais. Mas se o seu objetivo é curtir boas horas de narrativa mafiosa, com ação da velha guarda e visual marcante, saiba que este jogo entrega bonito.






