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Yakuza Kiwami 2: o melhor port da saga na Nintendo | Análise

Yakuza Kiwami 2 chega ao Switch 2 como a sequência que consolida de vez a série na plataforma.

Analisado no Nintendo Switch 2


Para começar esse review, decidi fazer um breve resumo de como a série Yakuza e a Nintendo, até pouco tempo atrás, sempre tiveram uma relação meio complicada. Lá pelos anos de 2013, a Sega tentou emplacar a série no console com Ryū Ga Gotoku 1&2 HD no Wii U, e o resultado foi um fiasco que fez a franquia sumir dos consoles da empresa por anos.

Mas agora o cenário é outro: Yakuza 0: Director’s Cut abriu as portas no Switch 2, Kiwami 1 foi atualizado com 60 fps e PT-BR, e chegou a vez de Yakuza Kiwami 2 desembarcar em grande estilo. A pergunta para quem está lendo esta análise é simples: esse port faz jus ao status de um dos jogos mais amados da série? E vale a viagem dupla para quem já jogou em outra plataforma? É o que vou tentar responder.

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Logo de cara, Kiwami 2 se apresenta como uma continuação direta e bem mais ampla. Um ano se passou desde os eventos de Kiwami 1. Kiryu largou a vida de yakuza, está cuidando da Haruka e tentando levar uma rotina tranquila… até que, obviamente, a paz dura pouco. Terada, o novo chefe do Clã Tojo, é assassinado, e deixa para Kiryu a missão de concretizar uma trégua com a rival Omi Alliance, de Osaka. Kiryu viaja para Sotenbori para tentar evitar uma guerra em escala nacional, mas esbarra em Ryuji Goda, o “Dragão de Kansai”: filho do líder da Omi, revoltado com a ideia de paz e pronto para tomar a organização do pai à força. O resultado é uma escalada de tensão que envolve não só Tóquio e Osaka, mas também máfias estrangeiras e conspiradores de alto escalão.

Se Kiwami 1 ainda tinha um foco mais íntimo, centrado em amizades, traições e um mistério pessoal, Kiwami 2 expande o tabuleiro. É uma história de guerra entre famílias, com clima de conflito aberto, reuniões pesadas, política interna e uma rivalidade entre dois “dragões”: Kiryu, o Dragão de Dojima, e Ryuji, o Dragão de Kansai. Ryuji é facilmente um dos melhores antagonistas da série: carismático, brutal, cheio de orgulho próprio e motivado por algo maior do que pura maldade genérica. Ele funciona como reflexo distorcido de Kiryu, o que dá um peso enorme a cada encontro entre os dois.

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A narrativa também ganha profundidade ao apresentar a detetive Kaoru Sayama, a “caçadora de yakuzas”, que se vê forçada a trabalhar ao lado de Kiryu. A dinâmica entre eles rende ótimos momentos: choque cultural entre Tóquio e Osaka, conflitos de dever versus empatia, pequenos toques de romance, e uma exposição mais humana do protagonista. Tudo isso vem acompanhado de uma localização em português brasileiro muito competente, com gírias, palavrões, piadas e até tutoriais de minigames (inclusive mahjong) bem explicadinhos, algo que faz diferença real para quem nunca se aventurou nesses sistemas.

Em termos de mundo, Kiwami 2 entrega além do clássico Kamurocho, agora o Sotenbori. Os dois distritos já apareceram em 0 e Kiwami 1, mas aqui eles ganham uma nova cara graças a Dragon Engine, o mesmo motor de Yakuza 6. O resultado é notável no Switch 2: as ruas são mais densas, as superfícies têm mais detalhe (asfalto texturizado, poças d’água refletindo neon, fachadas com vida própria), e a sensação de estar em um recorte vivo do Japão urbano é mais forte do que nunca. O grande trunfo é a exploração quase sem telas de loading: entrar em lojas, bares, restaurantes e becos acontece quase que em tempo real, com raríssimas exceçõe. Isso dá uma fluidez que casa perfeitamente com a ideia de andar livremente por onde quiser.

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Outro ponto que ajuda na imersão é a movimentação de Kiryu. Em comparação com os ports anteriores no Switch, ele responde melhor, tem pequenas animações a mais, e pode fazer coisas como descer de plataformas elevadas, saltar cercas e ultrapassar parapeitos no meio da corrida. Tudo bem que são detalhes pequenos, mas que deixam a exploração mais natural. A IA de pedestres ainda rende algumas cenas engraçadas, mas no geral o volume de pessoas, sons e luzes dá aquela sensação de cidade viva que a série sempre buscou.

Bom, lembra que no review de Kiwami 1 eu disse que o combate te deixava brincar com vários estilos de luta (Acelerado (rápido, Brigão, Fera e o estilo Dragão de Dojima) montando estratégias diferentes para cada situação, em Kiwami 2 muda esse caminho. Com a Dragon Engine, Kiryu agora tem um estilo de luta unificado, mais versátil, que você aprimora via sistema de progressão, em vez de trocar estilos no direcional. Para muita gente isso é ruim; para outras uma simplificação muito bem-vinda. Na prática, o combate continua visceral e exagerado, do jeito que você espera: com socos pesadíssimos, qualquer objeto vira arma improvisada (pode ser placas, mesas, cones, bicicletas), e as Heat Actions seguem roubando a cena com execuções cinematográficas cada vez mais absurdas.

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A grande diferença está na evolução. Em vez de um XP genérico ou dinheiro como em 0, Kiwami 2 dá tipos diferentes de pontos para ações diferentes: lutar, comer, cumprir missões secundárias, participar de atividades. Esses pontos são investidos em uma árvore de habilidades que reforça atributos (vida, força, corrida) e libera golpes novos. Na prática, você sente o progresso de forma mais constante e consegue moldar o Kiryu ao seu estilo, seja priorizando pura força bruta, seja expandindo opções de mobilidade e defesa. O sistema conversa bem com a própria estrutura do jogo: como Kiryu tem limite de quanto pode comer ou beber para recuperar vida e ganhar pontos (e isso é drenado pela ação), explorar restaurantes, experimentar pratos e caçar missões secundárias vira parte natural do ciclo, não só um enfeite.

As histórias secundárias continuam sendo um show à parte. Kiwami 2 lota Kamurocho e Sotenbori de personagens malucos: gente com fetiches estranhos, dramas bizarros e situações que vão do hilário ao genuinamente tocante. Em muitos casos, esses NPCs voltam depois para participar de Heat Actions especiais, ou para te ajudar nos modos paralelos, reforçando a sensação de que você está criando relações naquela cidade. E falando em modos: os mini games seguem em peso, seja um karaokê, mahjong, cassinos, fliperamas da SEGA, dardos, bilhar e ainda surgem dois destaques grandes que comento a seguir.

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O primeiro é o Cabaret Club Grand Prix, que resgata a vibe de gerenciamento de hostess club de Yakuza 0. Você ajuda a tocar o Four Shine em Sotenbori, recrutando anfitriãs, treinando, ajustando atendimento e competindo com outros clubes. Cuidado, pois é surpreendentemente viciante e, se você deixar, consome horas e horas do seu dia. O segundo é o Clan Creator com o Majima, que funciona quase como um tower defense ou um jogo de estratégia em tempo real simplificado: você gerencia tropas e upgrades enquanto o Majima enfrenta ondas de inimigos. Não é profundo nem obrigatório, mas muda o ritmo e encaixa bem no pacote. De brinde, Kiwami 2 ainda traz a Majima Saga, um pequeno extra jogável focado no Goro Majima, que funciona como epílogo para eventos de Kiwami 1. É curto, mas obrigatório para quem é fã do personagem.

Agora chegou a hora de falarmos de como o jogo roda no Switch 2 especificamente. Diferente de Kiwami 1 e 0: Director’s Cut, que rodam a 60 fps na plataforma, Kiwami 2 roda a 30 fps no Switch 2, assim como em outros consoles em que a Dragon Engine está presente. Isso pode decepcionar quem esperava a mesma fluidez dos outros dois, mas a boa notícia é que os 30 fps são muito estáveis. Mesmo nos combates mais insanos, com múltiplos inimigos, objetos voando e efeitos na tela, não há quedas perceptíveis. Depois de um tempo de jogo, o frame rate deixa de ser algo que grita na sua cara; o importante é que a sensação de resposta nos controles permanece excelente.

Visualmente, o port faz jus ao jogo. A imagem é nítida na TV e no portátil, com resolução dinâmica bem aplicada e reconstrução de imagem que evita o infame “blur” que muitos ports de Switch original tinham. Kamurocho e Sotenbori aparecem com cores vivas, neon forte, reflexos convincentes e densidade de elementos, sem parecer versão rebaixada demais. Os modelos de personagens ainda seguram bem, animam o rosto com expressividade, e só algumas texturas e efeitos de luz denunciam a idade do projeto (afinal estamos falando de um remake de um jogo de 2006, lançado originalmente em 2017 no PS4). Os loads quase inexistentes ajudam muito a dar cara de produto moderno: reiniciar missão, mudar de área ou entrar em lojas acontece em segundos.

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Um ponto legal dessa leva Yakuza no Switch 2 é a unificação de experiência: além de Kiwami 2 chegar redondinho, a Sega lançou um update de Kiwami 1 pro Switch 2 (e pro Switch original) adicionando legendas em PT-BR e melhorando carregamento. Falta só o 0: Director’s Cut receber a mesma atenção na parte da tradução para ficar tudo em ordem para nós brasileiros.

Uma coisa que acho que seria maravilhoso é se com o game pudesse ter vindo com extras de bastidores, esboços de arte, comentários de desenvolvimento, seja do Yakuza 2 de PS2, seja do próprio remake. Em vez disso, o que temos é só o jogo em si e, no máximo, alguns clássicos da SEGA em forma de arcade dentro do universo (como Virtua Fighter 2), o que é bacana, mas longe algo para marcar a história que a franquia merecia.

No frigir dos ovos, Yakuza Kiwami 2 no Switch 2 é um port extremamente competente de um dos melhores jogos da série. Ele perde um pouco da flexibilidade de combate dos antecessores ao abandonar múltiplos estilos de luta, mas compensa com um sistema de progressão mais envolvente, uma história ainda mais ambiciosa, personagens fortíssimos (Ryuji e Sayama são destaques), e distritos que nunca pareceram tão vivos e bonitos nos consoles da Nintendo. Jogar essa guerra entre Tojo e Omi no portátil, sem grandes concessões, é quase um sonho, se ainda lembrarmos das dificuldades da franquia lá atrás com o Wii U.

Pra quem está chegando agora, a recomendação de ordem continua sendo: Yakuza 0 → Kiwami 1 → Kiwami 2. O impacto emocional de muita coisa aqui depende do que foi construído nos jogos anteriores. Para quem já é veterano e quer revisitar no Switch 2, esse port entrega exatamente o que promete: a experiência completa, estável, linda e portátil. Kiwami 2 não só confirma que a série encontrou uma casa na Nintendo como deixa um recado bem claro: se a Sega trouxer o resto da saga, o Switch 2 vira automaticamente uma das melhores plataformas pra maratonar a história inteira de Kazuma Kiryu.

Yakuza Kiwami 2

9

Nota

9.0/10

Positivos

  • História intensa
  • Personagens carismáticos e bem escritos
  • Kamurocho e Sotenbori estão lindos
  • Sistema de evolução mais profundo
  • Legendas em português do Brasil bem traduzidas

Negativos

  • Ausência de múltiplos estilos de luta
  • Roda a 30 fps no Switch 2

Marcelo Rodrigues

Old Gamer, se aventurando no ramo dos video-games deste o Atari. Já foi só do lado "Azul" da Força, mas hoje distribui sua atenção para todas as plataformas. Apesar de jogar todos os estilos, Adventures e Plataformas ainda tem um lugar especial em seu coraçãozinho.
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