
Analisado no Nintendo Switch 2
Quando Final Fantasy X foi lançado há 25 anos no PlayStation 2, ele marcou o fim de uma era e o começo de outra para a Square. Foi o primeiro jogo da série com dublagem, o primeiro sem um mapa-múndi tradicional, o último com Nobuo Uematsu como compositor principal e o primeiro a ganhar uma sequência direta (X-2). É um marco histórico que, até hoje, divide opiniões sobre o rumo que a franquia tomou depois dele, mas que se sustenta como um dos melhores RPGs já feitos.
Vamos então já tirar o elefante da sala: A coletânea HD Remaster já passou por PS3, PS4, Vita, PC, Xbox One e o Switch original. Agora, ela chega ao Nintendo Switch 2. A proposta é simples: entregar a versão definitiva desses dois jogos para o novo console híbrido. O problema não está na qualidade dos jogos em si, que continuam fantásticos, mas na forma como a Square Enix decidiu comercializar esse pacote.
Não há rota de upgrade (nem gratuita, nem paga) para quem já possui a versão de Switch 1. Não há transferência de save. Se você quiser jogar no Switch 2 com as pequenas melhorias oferecidas, vai ter que pagar o preço cheio de um jogo novo e começar do zero. Para quem nunca jogou, é um prato cheio; para quem já comprou essa coletânea antes, é uma decisão comercial frustrante.

Se você é um daqueles que ainda não jogaram, vamos detalhar um pouco da história e narrativa dos jogos presentes na coletânea.
A narrativa de Final Fantasy X continua sendo um dos pontos mais altos de toda a franquia. A jornada de Tidus, um jogador de Blitzball deslocado no tempo, e Yuna, uma invocadora em peregrinação para derrotar a entidade colossal Sin, é carregada de melancolia. O jogo lida com temas pesados como luto, sacrifício, dogma religioso e corrupção institucional com uma sensibilidade que envelheceu muito bem. A ausência de um mapa-múndi aberto, criticada na época, na verdade joga a favor da história: a linearidade reforça a sensação de que você está, de fato, em uma peregrinação com um destino trágico.

Final Fantasy X-2, por outro lado, dá um cavalo de pau no tom. Saindo da atmosfera solene e opressiva do primeiro jogo, a sequência abraça uma estética pop, colorida e extravagante (com direito a música de J-Pop e shows). Yuna, Rikku e Paine formam um trio de caçadoras de esferas em um mundo que está tentando se reconstruir e descobrir o que fazer com a própria liberdade após a queda da religião dominante.
Muitos torcem o nariz para X-2 até hoje, mas a mudança de tom faz total sentido narrativo: é a explosão de alívio de um mundo que viveu sob a sombra da morte por mil anos. A história de X-2 tem seus momentos bobos (e o personagem Brother continua sendo insuportável sim, com certeza), mas também carrega uma mensagem interessante sobre como a sociedade lida com o luto coletivo.
O pacote ainda inclui o curta em vídeo Eternal Calm (que liga os dois jogos), o epílogo jogável Last Mission e o áudio-drama Final Fantasy X: Will, que serve como um encerramento (que na verdade é meio bizarro e bem divisivo) para a saga.

Mecanicamente, os dois jogos são opostos complementares, e ambos brilham em suas propostas para dizer bem a verdade.
Final Fantasy X abandonou o clássico sistema ATB (Active Time Battle) por um combate estritamente por turnos (CTB). Isso permite um planejamento tático minucioso: você vê a ordem dos turnos no canto da tela e pode trocar personagens no meio da batalha sem penalidade. É um sistema que valoriza explorar fraquezas inimigas e usar o grupo inteiro, em vez de focar só nos três personagens mais fortes. A progressão pelo Sphere Grid (com a opção do Expert Grid nesta versão) continua sendo uma das formas mais satisfatórias de evoluir personagens em um RPG.
Final Fantasy X-2 traz o ATB de volta, mas em sua forma mais frenética e dinâmica. O grande destaque é o sistema de Dresspheres (uma variação do clássico Job System), que permite que Yuna, Rikku e Paine troquem de classe no meio da luta, com direito a animações de transformação estilo garota mágica. É um combate rápido, divertido e que recompensa a experimentação constante. O jogo também adota uma estrutura de missões abertas, permitindo explorar Spira quase livremente desde o início.
O problema de X-2 fica por conta do seu design de que força você a jogar e jogar e jogar. Explico: para conseguir o “final verdadeiro”, você precisa fazer escolhas muito específicas e encontrar segredos obscuros que, sem um guia, são quase impossíveis de adivinhar.

Visualmente, o HD Remaster sempre foi um trabalho, digamos, de sentimentos misto. Os cenários e os modelos dos personagens principais receberam um belo upgrade em relação ao PS2, mas os NPCs continuam com rostos de baixa qualidade, criando um contraste estranho nas cutscenes.
No Nintendo Switch 2, o ganho técnico em relação ao Switch 1 é modesto, mas perceptível. No modo dock, o jogo agora roda a 1440p (contra os 1080p anteriores), com uma filtragem de texturas visivelmente superior, deixando a imagem mais nítida e limpa. O frame rate se mantém cravado em 30 fps, o que é perfeitamente aceitável para o ritmo desses jogos. No modo portátil, a tela do Switch 2 faz as cores de Spira saltarem aos olhos, tornando a experiência excelente.
A grande novidade desta versão (além da resolução) é a inclusão de “cheats” oficiais, que já existiam na versão de PC, mas ficaram de fora do Switch 1. Agora você pode acelerar o jogo em até 4x (o famoso modo turbo), aumentar ou zerar a taxa de encontros aleatórios, ativar auto-battle, maximizar Gil, liberar todas as skills e dar boost nos atributos.
O modo turbo e o controle de encontros são melhorias de qualidade de vida indispensáveis hoje em dia, tornando a exploração e o grind muito mais dinâmicos. O suporte à tela de toque também foi mantido, permitindo curas rápidas fora de combate e atalhos para pular as animações de transformação em X-2.
No entanto, o pacote tropeça feio ao não corrigir problemas antigos. O maior deles: ainda não é possível pular cutscenes em Final Fantasy X. Em um jogo com chefes difíceis, ser obrigado a assistir a diálogos longos repetidas vezes após um Game Over é um teste de paciência que não deveria existir em um remaster moderno. Além disso, bizarramente, o recurso de autosave presente na versão de PC não foi incluído aqui.

Avaliar Final Fantasy X | X-2 HD Remaster no Switch 2 exige separar a obra do produto.
Como obra, estamos falando de dois dos RPGs mais importantes da história da Square Enix. A jornada de Tidus e Yuna é atemporal, o combate de ambos os jogos é excelente e a trilha sonora (que permite alternar entre a original e a arranjada) é fantástica, fantástica mesmo. Jogar isso no modo portátil, com a tela e o poder do Switch 2, é inegavelmente a melhor forma de experimentar esses clássicos onde quer que vc esteja.
Como produto, a atitude da Square Enix é difícil de defender. Cobrar preço cheio por um port que oferece apenas um leve aumento de resolução e cheats que já existiam no PC há anos é frustrante. A recusa em oferecer um upgrade pago (como a Sony costuma fazer) ou permitir a transferência de saves do Switch 1 mostra um descaso com a base de fãs que já apoiou o jogo na plataforma anterior.
Se você nunca jogou Final Fantasy X, ou se pulou a versão do Switch original e quer ter esses jogos no seu Switch 2, a compra é mais do que recomendada. O valor do pacote, em termos de horas de jogo e qualidade de conteúdo, é altíssimo. Mas se você já tem o cartucho ou a versão digital no Switch 1, os ganhos técnicos e os cheats dificilmente justificam pagar o preço cheio novamente para começar tudo do zero.

Final Fantasy X | X-2 HD Remaster no Nintendo Switch 2 é a versão definitiva de dois clássicos absolutos para quem quer jogar de forma portátil. A adição do modo turbo e do controle de encontros melhora muito o ritmo, e a imagem a 1440p no dock é limpa e agradável.
No entanto, a política de preço da Square Enix e a falta de opções de upgrade para donos da versão anterior mancham o lançamento. É um pacote obrigatório para novatos, mas uma compra altamente questionável para veteranos que já possuem o jogo no console anterior.
Os jogos continuam sendo obras-primas, mas o port cobra caro por melhorias que deveriam ser um simples patch de atualização.
Veredito Gamers & Games:
8.0
/ 10
“Final Fantasy X e X-2 continuam excelentes RPGs, e o Switch 2 oferece uma ótima experiência portátil. Porém, o preço cheio, a falta de upgrade e a ausência de algumas melhorias importantes prejudicam o pacote.”
FINAL FANTASY X/X-2 HD Remaster
Positivos
- Campanhas profundas e emocionantes
- Sistemas de combate excelentes
- Inclusão de cheats oficiais
- Resolução de 1440p no dock
- Trilha sonora fantástica
Negativos
- Preço cheio sem nenhuma opção de upgrade
- Impossibilidade de transferir o save do Switch 1
- Ainda não é possível pular cutscenes em Final Fantasy X
- Ausência inexplicável do recurso de autosave
- Contraste visual bizarro entre os protagonistas e os NPCs.






