
Dragon Quest VII Reimagined – Acerta ao modernizar clássico da Square Enix, mas não é perfeito | Análise
Reimaginação transforma um dos capítulos mais longos e controversos da franquia em uma aventura mais acessível, bonita e convidativa
Analisado no Nintendo Switch 2
Dragon Quest VII Reimagined chegou em 5 de fevereiro de 2026 com versões para o PlayStation 5, Xbox Series X|S, Nintendo Switch, Nintendo Switch 2 e PC com uma missão complicada: atualizar um dos jogos mais divisivos da franquia sem descaracterizá-lo por completo. E esse desafio não é pouca coisa. O Dragon Quest VII original sempre foi lembrado por sua duração enorme, ritmo lento e estrutura cansativa, mesmo sendo um capítulo muito querido por parte dos fãs mais antigos.
Para este lançamento, a Square Enix escolheu não seguir o caminho do remake tradicional, afinal, eles já fizeram isso uma vez em 2016 para o Nintendo 3DS. Em vez de apenas melhorar os gráficos e manter tudo como era, Dragon Quest VII Reimagined reconstrói boa parte da experiência com foco em ritmo, acessibilidade e conforto. O resultado é um JRPG por turnos muito mais fácil de recomendar em 2026, especialmente para quem nunca teve contato com esse capítulo. Ao mesmo tempo, essa modernização também suaviza algumas das arestas que davam personalidade ao jogo original.
A aventura continua excelente e mantém o charme que sempre diferenciou Dragon Quest VII dentro da série. A história acompanha um grupo de jovens que encontra fragmentos misteriosos capazes de abrir passagens para o passado, permitindo restaurar ilhas desaparecidas e reconstruir o mundo aos poucos. Em vez de apostar em uma grande narrativa épica contínua, o jogo trabalha com uma estrutura quase episódica, em que cada ilha funciona como um pequeno arco próprio, com conflitos, personagens e consequências específicas, as vezes uma história pode interferir em outra, mas isso é mais a exceção do que a regra.
Dragon Quest VII Reimagined entrega histórias menores que variam entre o humor leve, o drama e a melancolia, e em vários momentos consegue surpreender pela forma como trata perdas e consequências. É um jogo que não depende o tempo inteiro de um grande vilão para manter o interesse, porque boa parte da força da narrativa está justamente nos dilemas e problemas de cada região. Falando em vilão, os personagens vão se dar conta de sua existência depois de bom tempo de gameplay apenas, isso demonstra o quanto a mecânica de resolver problemas locais de cada ilha é eficiente no começo do game.
Por outro lado, depois de muitas horas, o ciclo de coletar fragmentos, voltar ao passado, resolver o problema local e retornar ao presente começa a pesar. O Reimagined melhora o ritmo, acelera o progresso e corta boa parte da gordura, mas não muda a natureza repetitiva da base. Isso não estraga a experiência, mas é algo que continua perceptível, principalmente em longas maratonas de gameplay.
O elenco principal cumpre bem sua função, mas dificilmente vai entrar para o grupo de personagens mais marcantes da franquia. O foco da narrativa está menos em grandes transformações internas do time principal e mais nas histórias das ilhas e das pessoas que vivem nelas. Isso funciona dentro da proposta do jogo, mas também faz com que parte da equipe pareça menos desenvolvida do que em outros Dragon Quest. Ainda assim, o carisma, o humor pontual e o estilo clássico da série continuam presentes, e isso ajuda bastante na conexão com a jornada.
Nossa party é composta por 6 personagens no total, sendo que nunca passamos de 5 disponíveis, e durante a batalha apenas 4 estão em campo ao mesmo tempo. Tanto o estilo visual como de personalidade de cada um é bastante distinto, mas cada personagem é capaz de cativar de maneiras diferentes, por outro lado, talvez aquele que menos seja capaz de criar essa conexão com o jogador seja o Herói, uma vez que aqui, como em todo outro game da série, é mudo, apenas respondendo com a cabeça em algumas situações. Quando aos demais personagens, eles mostrar vida durante as batalhas e em momentos de exploração que podemos conversar com cada um deles, oferecendo dicas de gameplay, algumas são úteis como relembrar de um pedido com um NPC sobre um item que acabamos coletar, outras apenas falam coisas obvias e muita utilidade.
Na jogabilidade, Dragon Quest VII Reimagined é onde a reimaginação mais se justifica. O combate por turnos mantém a base clássica da franquia, com comandos simples, magias, habilidades e progressão focada em montagem de grupo, mas recebe melhorias importantes para se adaptar ao ritmo atual. A principal delas é o sistema de dupla vocação, que permite equipar duas classes ao mesmo tempo e criar combinações mais criativas. Isso dá uma liberdade excelente para experimentar builds, testar sinergias e buscar vocações avançadas, deixando a progressão muito mais interessante e viciante.
Além disso, o pacote de qualidade de vida é amplo. Os inimigos aparecem no mapa, os encontros aleatórios foram eliminados (acontecem apenas no oceano), monstros muito fracos no mapa e nas dungeons podem ser derrotados instantaneamente e há recursos para acelerar batalhas, opções já implementadas em outros títulos da série, além disso, as opções de estilo de batalha também estão disponíveis, foco em cura, não usar magia, apenas defesa, ataque equilibrado, não demonstrar misericórdia ou o clássico, receber ordens. Esses recursos facilitam a vida, porém, é bom sempre manter um personagem no modo receber ordens, uma vez que no modo automático o game quase nunca vai usar itens do inventário e alguns são muito eficientes.
Tudo isso funciona bem e reduz bastante o desgaste de um jogo que naturalmente exige muitas horas. O problema é que esse conjunto também contribui para uma campanha mais fácil em boa parte do tempo, inclusive, o game não trabalha com dificuldade fechada, em fácil, médio e difícil, mas sim, o jogador pode modificar diferentes indicadores para ajustar o gameplay à sua necessidade, isso é algo muito bom, mas demonstra um ponto negativo do game, que é o de que mesmo quando a dificuldade aumenta, os inimigos são versões mais fortes dos mesmo, e isso acaba fazendo que em vez de termos combates mais estratégicos, recebemos com mais frequência inimigos mais resistentes e lutas mais demoradas. Não estou dizendo que a variedade de inimigos é baixa, longe disso, mas é notável que muitos são versões potencializadas de inimigos anteriores, agora se tem um ponto onde não há como negar a genialidade de Dragon Quest, é o nome dos inimigos, um mais legal ou engraçado que o outro, realmente, a equipe de localizou (ou nomeou) esses inimigos estão de parabéns.
Na exploração, a mesma lógica se repete. O jogo faz de tudo para evitar que o jogador se perca, com objetivos sempre bem sinalizados e recursos de orientação para fragmentos importantes. É ótimo para quem quer uma experiência fluida e sem travas, mas também reduz um pouco da sensação de descoberta. Quem gosta de RPG mais guiado vai agradecer. Quem prefere explorar no próprio ritmo pode sentir que o jogo segura demais na mão, mas nem tudo é perdido, uma vez que podemos desligar o indicador de onde prosseguir, mas aí se prepare para aguentar mais o falatório sem fim dos personagens, que mesmo com fala automática, ainda é demorado e longo.
Visualmente, Dragon Quest VII Reimagined é um dos trabalhos mais bonitos da série. A direção de arte aposta em uma estética de diorama com personagens que parecem bonecos escaneados, e a escolha funciona muito melhor do que poderia parecer à primeira vista. O traço de Akira Toriyama continua intacto, mas ganha uma apresentação mais texturizada, com roupas, cenários e elementos naturais que passam uma sensação quase tátil. Como ponto negativo fica o fato de que as mudanças de roupas e equipamentos não mudam o visual dos personagens, algo que acontece em outros jogos da série. A água e o mar, em especial, são destaques e ajudam bastante a vender a fantasia da jornada entre ilhas. Para ser mais fácil de explicar, o visual é como se pegássemos o estilo aplicado nos game The Legend of Zelda: Link’s Awakening e Echoes of Wisdom e déssemos um aplique de texturas e estilos mais realistas ao game, a meu ver o estilo casa lindamente com a proposta de remakes para os game da geração 32Bits, assim como o HD2D foi usado para os de 8bits (e quem sabe será para os de 16Bits).
A trilha sonora mantém o padrão de qualidade da franquia, com temas que reforçam bem o clima de aventura, conforto e melancolia. É o tipo de trilha orquestrada que encaixa perfeitamente no universo de Dragon Quest, embora algumas faixas se tornem repetitivas quando passamos muito tempo explorando uma mesma área, ou localidades relativas, como cidades e cavernas. Os efeitos sonoros também são muito bons, clássicos da franquia, mas poderiam usar o diferente de entrar/sair de algum local para o som de escadas.
Um detalhe curioso que eu notei na sonorização, não sei se isso é apenas dessa versão, mas é a diferença ao ouvir o game pela TV/Auto falantes do console e com fones de ouvido, por exemplo, ouvindo pelos auto falantes parecida que de fato estávamos ouvindo um som ambiente, mais espacial, até com as vozes meio distantes, isso desaparecia quando usei fones de ouvido, ali o som parecia perto, com esse efeito “espacial” sumindo, é algo estranho de explicar, mas é como se de fato, estivéssemos acompanhando o desenrolar da história a partir de um ponto de vista de expectador com o som vindo daquele ponto mais distante. No campo da localização, fica a maior crítica: o jogo continua não oferecendo suporte em português, nem o brasileiro e nem o europeu, isso é algo inaceitável, ainda mais levando em conta a quantidade absurda de texto que o game tem, junto ao fato de ter o costume de misturar o inglês com detalhes de outras línguas que representam cada ilha, sinceramente não dá mais para manter assim Square-Enix, games como Forspoken todo localizado, e nenhum Dragon Quest é? Olha sem comentários…
O desempenho também é sólido no geral. No Switch 2, a experiência portátil combina perfeitamente com a estrutura episódica do jogo, e o resultado é uma versão muito confortável para jogar em sessões curtas. Nos consoles e no PC, os carregamentos são rápidos e a apresentação se mantém estável, e isso também ocorre no novo console da Nintendo.
No fim, Dragon Quest VII Reimagined é um ótimo RPG e uma reimaginação competente, especialmente para novos jogadores. Ele transforma um clássico difícil de recomendar em uma aventura mais elegante, rápida e amigável, sem abandonar completamente a essência da franquia. Ao mesmo tempo, perde parte do mistério, da aspereza e da identidade que faziam o original ser tão único para alguns fãs. Eu particularmente, prefiro esse novo.
Dragon Quest VII Reimagined
Positivos
- Direção de arte belíssima
- Sistema de dupla vocação
- Ritmo muito mais fluido que o original
- Estrutura episódica funciona muito bem
- Ótima experiência portátil
Negativos
- Campanha pode ficar repetitiva com o tempo
- Parte da identidade e conteúdo dos anteriores se perdeu
- A quantidade absurda de texto que não adiciona quase nada relevante
- A inaceitável falta de localização em Pt-Br













