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Dune: Awakening – Entre a areia, a especiaria e a sobrevivência | Análise

Analisado no PlayStation 5


Começarei essa análise dizendo que comecei Dune: Awakening com uma certa curiosidade, mas também com um pé atrás. Adaptar Duna para um jogo já seria uma tarefa complicada por si só. Transformar aquele universo em um survival de mundo aberto, com criação de personagem, exploração, construção, coleta de recursos e elementos de MMO parecia uma mistura que poderia facilmente perder a identidade da obra original e desagradar uma grande quantidade de pessoas, inclusive eu.

Só que, depois de algumas horas em Arrakis, percebi que a proposta funciona justamente porque o jogo não tenta simplesmente reproduzir os livros ou os filmes. Ele cria a sua própria versão desse universo. A história acontece em uma linha do tempo alternativa na qual Paul Atreides nunca existiu. Isso muda completamente a forma como enxergamos personagens, acontecimentos e relações de poder, mas, ao mesmo tempo, mantém vários dos conceitos que fazem Duna ser Duna. Bene Gesserit, Fremen, Sardaukar, Casas Nobres, especiaria, política, religião e a luta pelo controle de Arrakis continuam presentes.

E foi exatamente isso que mais gostei na narrativa. Em vez de me colocar para interpretar uma versão de algum personagem conhecido, o jogo me insere de forma dinâmica em parte daquele universo. Meu personagem começa praticamente do zero e, aos poucos, vai conquistando espaço, conhecimento, equipamentos e influência. É uma maneira muito interessante de contar uma história dentro de uma franquia tão conhecida, porque eu não fico apenas acompanhando a história de alguém: eu sinto que estou construindo a minha própria história em Arrakis, o que torna a experiência ainda mais orgânica e imersiva.

Isso também faz com que as referências aos livros sejam muito mais interessantes. Quem conhece a obra de Frank Herbert percebe rapidamente que existe muito mais acontecendo por trás de uma simples missão. A disputa pela especiaria não é apenas uma questão de sobrevivência ou dinheiro. Ela está relacionada ao poder político, à economia, à religião e à própria estrutura daquele universo. Os filmes de Denis Villeneuve também são uma referência muito clara, principalmente na direção de arte. Mas Dune: Awakening não tenta competir com eles em uma adaptação cena por cena. Ele aproveita a identidade visual estabelecida pelos filmes e transforma aquilo em um mundo que eu posso explorar e reconhecer.

E aqui está, para mim, um dos maiores acertos do jogo: Arrakis é quase um personagem. O deserto é gigantesco, hostil e, ao mesmo tempo, bonito de uma maneira quase sádica. Andar por aquelas Dunas sabendo que um verme pode aparecer a qualquer momento, cria uma tensão que poucos jogos conseguem reproduzir. A primeira vez que você realmente percebe a dimensão de um Shai-Hulud não é apenas um momento de espetáculo visual, existe uma sensação verdadeira de estar diante de algo muito maior do que o próprio personagem e foi aí que comecei a entender a proposta do jogo.

A mecânica de sobrevivência é provavelmente o elemento que mais vai dividir opiniões, mas, particularmente, achei que ela combina muito com o universo. Água, temperatura, abrigo, equipamentos, veículos, recursos e exploração fazem sentido dentro da lógica de Arrakis. Não parece que colocaram mecânicas de survival simplesmente porque o gênero está na moda. O próprio universo de Duna praticamente pede esse tipo de sistema. Mas o problema é que, em alguns momentos, o jogo exagera na quantidade de tarefas e faz a gente se sentir um CLT de missões. Existe uma quantidade considerável de coleta, fabricação, evolução de equipamentos e gerenciamento de recursos. Em determinados momentos, a experiência começa a ficar repetitiva e o grind acaba quebrando um pouco o ritmo da narrativa.

Ainda assim, gostei da maneira como a progressão acontece. A sensação de começar praticamente sem nada e, depois de algumas horas, possuir veículos, equipamentos melhores, uma base estruturada e mais liberdade para explorar é bastante satisfatória. A construção da base também me surpreendeu. Existe liberdade suficiente para criar algo que realmente tenha personalidade, e o sistema conversa bem com a fantasia de estabelecer uma espécie de posto avançado no meio de Arrakis.

Mas existe um ponto em que eu senti que faltou um pouco de refinamento, faltou mais zelo. O combate funciona, mas não é o aspecto mais chamativo da experiência. Tanto os confrontos corpo a corpo quanto os combates à distância poderiam ter mais impacto e fluidez. Algumas lutas passam uma sensação um pouco mecânica demais para um universo que deveria transmitir muita brutalidade. Não chega a atrapalhar o desenrolar do jogo, principalmente porque existem diferentes possibilidades de abordagem e evolução do personagem, mas é difícil não imaginar como Dune: Awakening poderia ser ainda melhor com um sistema de combate mais refinado.

Também encontrei problemas técnicos durante a experiência. Bugs, pequenos glitches, problemas de veículos e situações em que alguma coisa simplesmente não funciona como deveria. São problemas que incomodam, principalmente porque o restante da produção é tecnicamente muito competente, mas acredito que com atualizações, tudo ficará ainda melhor.

O jogo consegue transformar um planeta aparentemente composto apenas por areia em algo extremamente variado. As mudanças de iluminação, as tempestades, estruturas, cavernas, bases, veículos e diferentes regiões ajudam a evitar aquela sensação de estar percorrendo sempre o mesmo cenário. Pilotar um ornitóptero e observar Arrakis de cima é uma daquelas experiências que fazem você parar por alguns segundos simplesmente para olhar. E quando o jogo coloca um verme gigantesco no horizonte, a escala do mundo fica ainda mais evidente. Nesse aspecto, a experiência consegue realizar algo que considero muito importante em uma adaptação: não apenas representar visualmente o universo, mas transmitir a sensação de estar dentro dele.

A trilha sonora também merece bastante destaque: Ela não tenta transformar cada momento em um espetáculo icônico. Muitas vezes trabalha justamente com ambientação, tensão e silêncio, o que combina muito com a solidão que um deserto deve manifestar. Quando a música cresce durante uma exploração, uma tempestade ou um encontro mais importante, o resultado funciona porque existe espaço para ela respirar. O design de som segue a mesma linha. O vento, os veículos, as armas e principalmente a presença dos vermes ajudam a construir uma atmosfera muito convincente. É aquele tipo de jogo em que, algumas vezes, você vai preferir simplesmente parar e observar o ambiente.

Joguei a experiência considerando também o conteúdo da Ultimate Edition, e acho que ela é particularmente interessante para quem realmente quer mergulhar no universo. A edição reúne a Armadura de Bator Sardaukar, paletas exclusivas para a moto de areia e o ornitóptero, o conjunto de construção do Palácio de Caladan e o trajestilador inspirado no filme de 2021. O que mais gostei aqui foi que o conteúdo não fica limitado a simplesmente entregar cosméticos aleatórios. O conjunto do Palácio de Caladan e o trajestilador, por exemplo, fazem uma conexão direta com a estética estabelecida pelo filme.

No fim, o que mais me conquistou em Dune: Awakening foi a sensação de viver dentro de Duna. Não é simplesmente um jogo com areia, vermes gigantes e referências aos filmes. Existe uma preocupação clara em trazer as mecânicas de sobrevivência, exploração e progressão conversarem com aquilo que Frank Herbert criou. Eu gostei principalmente de poder construir minha própria trajetória dentro de uma história que já possui décadas de mitologia. O jogo consegue respeitar elementos muito conhecidos sem ficar completamente preso a eles. E acho que essa é a melhor decisão tomada aqui: Paul Atreides não precisa existir para Duna continuar sendo Duna. O jogo entende isso e cria espaço para que a gente seja parte daquele universo.

É claro que nem tudo funciona perfeitamente. O combate poderia ser mais refinado, o grind eventualmente pesa e os problemas técnicos ainda aparecem.  Mas quando estou atravessando o deserto, fugindo de um verme, chegando a uma nova região, construindo minha base ou simplesmente observando Arrakis de cima de um ornitóptero, esses problemas ficam em segundo plano.

Dune: Awakening não é a adaptação definitiva de Duna, até porque nem tenta ser. É a minha oportunidade de entrar nesse universo, vestir um trajestilador, enfrentar Sardaukar, sobreviver ao deserto, construir meu espaço e descobrir até onde consigo chegar. E, para mim, isso já é motivo suficiente para passar muitas horas perdido em Arrakis.

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Veredito Gamers & Games:

Nota Final
8.5
/ 10

Dune: Awakening consegue transformar Arrakis em uma experiência de sobrevivência e exploração extremamente imersiva. Apesar do combate pouco refinado, do grind e de alguns problemas técnicos, o jogo entrega uma maneira envolvente de viver sua própria história dentro do universo de Duna.”

Dune: Awakening

8.5

Nota

8.5/10

Positivos

  • Ambientação
  • Narrativa
  • Conteúdo e imerão

Negativos

  • Combate
  • Grind
  • Problemas técnicos

Thiago Richeliê

Um otimista cauteloso que sofre influências da desastrosa Lei de Murphy! Fisioterapeuta, amante de Games, o louco das Séries, apaixonado por Filmes e que chora ouvindo Músicas.
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