
SURI: The Seventh Note – Uma bela sinfonia que nem sempre encontra o próprio ritmo | Análise

Versão Testada: PlayStation 5
SURI: The Seventh Note
PlayStation 5 e PC
30/out./2026
Aventura, Música/ritmo
Tathvamasi Studios
Sabe quando você começa um jogo, percebe que tem algo especial ali, mas, conforme joga, a vontade de continuar vai diminuindo? Foi mais ou menos isso que aconteceu comigo em SURI: The Seventh Note. A primeira impressão é muito boa. A direção de arte chama a atenção, a música tem personalidade e a proposta de misturar plataforma com mecânicas rítmicas pareceu interessante o suficiente para despertar a minha curiosidade em experimentar coisas diferentes. Só que, conforme avanço, começo a perceber um problema: o jogo parece exigir muito de mim antes de conseguir me convencer a querer continuar. E isso muda bastante a experiência, causando um certo desânimo.
SURI acompanha Ajira, uma jovem que parte em busca de uma fruta capaz de salvar a mãe de uma doença que já levou seu pai. O que começa como uma jornada pessoal acaba se transformando em uma missão para restaurar a harmonia de uma ilha na qual a música faz parte das próprias leis da natureza. Eu gosto bastante dessa motivação. Existe algo genuinamente humano em uma personagem que começa sua aventura tentando salvar alguém que ama, antes mesmo de compreender a dimensão do que está acontecendo ao seu redor. E essa premissa também combina com a proposta do jogo: se a música representa equilíbrio e vida, romper essa harmonia significa corromper o próprio mundo.
É uma ideia interessante, e a narrativa tem potencial para criar uma conexão emocional com a protagonista. Entretanto, eu senti falta de uma força maior na maneira como a história e a jogabilidade trabalham juntas para me manter engajado. O pano de fundo desperta curiosidade, mas não foi suficiente para compensar os momentos em que a experiência começou a parecer mais uma sequência de obstáculos a superar do que uma aventura que eu realmente queria continuar explorando. E não é que eu precise sempre de uma experiência cinematográfica, cheia de reviravoltas e diálogos memoráveis, para gostar de um jogo. Às vezes, uma história simples funciona perfeitamente. Mas simplicidade não pode ser confundida com capacidade automática de envolvimento.
A direção de arte é, sem dúvida, um dos maiores méritos. O universo colorido, inspirado em tradições artísticas, arquitetônicas e culturais da Índia, foge daquela fantasia genérica que parece ter sido montada com as mesmas referências de sempre. Há influências de fortalezas rajput, da cultura Theyyam e de mosteiros do Himalaia na construção desse mundo fantástico. O resultado tem identidade própria e isso é maravilhoso. Esses cenários parecem desenhados à mão, a paleta vibrante e a composição dos ambientes ajudam a criar uma experiência visual que não depende do realismo para impressionar. É o tipo de projeto que entende que um jogo pode ser bonito justamente por assumir uma linguagem artística particular, em vez de tentar reproduzir o mundo real com o máximo de detalhes possível. Só que é aqui aparece uma contradição importante.
Em determinados momentos, essa quantidade de elementos na tela dificulta a identificação dos obstáculos, das plataformas e das informações necessárias para reagir corretamente. A composição visual, que deveria enriquecer a experiência, pode acabar competindo com aquilo que realmente importa durante uma sequência de ação. E isso é especialmente problemático em um jogo que exige precisão do jogador. De nada adianta construir cenários visualmente ricos se, no meio de uma sequência que exige reflexos rápidos, eu precisei gastar mais energia tentando entender a tela do que executando os movimentos. A beleza continua lá. O problema é quando ela deixa de trabalhar a favor da jogabilidade.
Em SURI, a música não está ali apenas para criar atmosfera. Ela determina o ritmo dos movimentos, influencia a progressão e participa diretamente da execução de saltos, investidas e sequências de fuga. A proposta de combinar referências musicais indianas com uma estrutura de ação rítmica dá ao jogo uma identidade bastante particular. E a trilha tem um papel fundamental nessa construção. Eu também considero interessante a integração planejada com os recursos táteis do DualSense no PS5, que pode aproximar ainda mais o jogador das pulsações e dos movimentos apresentados na tela.
É uma daquelas ideias que, quando bem executadas, fazem o controle deixar de ser apenas uma ferramenta e passar a integrar a experiência sensorial. O problema é que existe uma diferença entre usar a música para enriquecer a jogabilidade e fazer com que ela se torne praticamente a única referência confiável para avançar. Eu vivi situações em que a leitura visual dos obstáculos foi tão difícil que eu precisei me orientar quase exclusivamente pelo som. E, sinceramente, isso me pareceu um sinal de alerta, pois a música deveria me ajudar a compreender o que fazer. Não deveria ser uma espécie de plano de emergência para compensar o excesso de informações na tela.
Foi aqui que SURI começou a perder a minha atenção durante a minha jogatina. A proposta de sincronizar movimentos com a música é interessante. Exige percepção, coordenação, memória e capacidade de antecipação. Eu não tenho problema algum com jogos que pedem dedicação, repetição e aprendizado. Pelo contrário, eu gosto de sentir que estou evoluindo, dominando uma mecânica e finalmente conseguindo executar algo que antes parecia impossível. Mas existe uma diferença entre construir uma curva de aprendizado desafiadora e despejar exigências demais sobre o jogador antes que ele consiga assimilar cada uma delas. Em SURI, o ritmo precisa estar certo, o salto precisa acontecer no momento adequado, os obstáculos exigem leitura rápida e determinadas plataformas dependem de uma sincronização bastante precisa. Quando tudo isso se acumula, a experiência pode se tornar excessivamente punitiva. E o problema não é simplesmente morrer ou precisar repetir uma fase.
Em vez de pensar no próximo trecho com curiosidade, começo a pensar no trabalho necessário para atravessá-lo. Em vez de entrar no fluxo da música, fico tentando decifrar o que o jogo espera de mim. Foi justamente esse desnivelamento da complexidade que fez a experiência não prender a minha atenção como eu gostaria. A sensação é de que o jogo tem uma ideia muito clara de como quer ser jogado, mas nem sempre consegue ensinar suas regras com a mesma clareza. E, quando a dificuldade se soma à poluição visual e a pequenos problemas de interface, a frustração deixa de ser um detalhe isolado e passa a comprometer o conjunto.
Não estou dizendo que SURI seja um jogo ruim, nem que sua proposta não tenha valor. Significa que, para mim, suas boas ideias não conseguiram superar os obstáculos de execução. E talvez seja justamente isso que mais me incomodou: consegui enxergar o potencial, consegui reconhecer a personalidade visual, a proposta musical e a intenção de construir algo diferente dentro do gênero. Só não consegui transformar esse reconhecimento em vontade constante de continuar jogando. A experiência não me manteve envolvido na medida que eu esperava, e não acho justo ignorar isso só porque o jogo tem uma estética bonita ou uma ideia original. Um jogo precisa funcionar como experiência, não apenas como conceito.
SURI: The Seventh Note tem identidade, boas ideias e uma direção artística que merece reconhecimento. A trilha sonora é um dos elementos mais interessantes, e a proposta de transformar ritmo em mecânica central demonstra ambição criativa. Mas, para mim, o desnivelamento da dificuldade, os problemas de leitura visual e a falta de fluidez em determinados momentos pesam mais do que deveriam. A nota não ignora as qualidades do jogo. Ela reflete o fato de que essas qualidades não foram suficientes para me manter interessado. É um jogo que me fez admirar o que estava na tela, mas nem sempre me deu vontade de continuar diante dela. E essa, no fim das contas, é a diferença entre reconhecer o potencial de uma experiência e realmente gostar de jogá-la.
Veredito Gamers & Games:
6.4
/ 10
SURI: The Seventh Note apresenta uma direção de arte marcante, uma trilha sonora interessante e uma proposta criativa que combina plataforma e ritmo. Entretanto, a dificuldade desnivelada, a poluição visual e os problemas de progressão prejudicam o envolvimento e impedem que suas boas ideias alcancem todo o potencial.












