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Resonance: A Plague Tale Legacy – A coragem de mudar a fórmula | Análise

Analisado no PlayStation 5


Resonance: A Plague Tale Legacy é um daqueles jogos que conseguiu me prender não apenas pela jogabilidade, mas principalmente pela maneira como construiu uma personagem, fazendo eu me importar com aquilo que está acontecendo com ela. E, para mim, esse é o grande mérito da aventura de Sophia. Resonance foi desenvolvido pela empresa francesa Asobo Studio e publicado pela Focus Entertainment, a mesma parceria responsável pelos impecáveis A Plague Tale: Innocence e A Plague Tale: Requiem.

E acho importante mencionar isso porque existe uma identidade muito clara na construção desse projeto. A Asobo não simplesmente decidiu continuar A Plague Tale com uma nova personagem. O estúdio optou por mudar o cenário, o período histórico, a protagonista e, principalmente, a forma como o jogador interage com esse universo. O próprio diretor criativo David Dedeine explicou que a intenção era explorar uma experiência diferente, mais orientada para a ação, mantendo Sophia como elo com o universo que já conhecemos. E essa mudança funciona muitíssimo bem.

Deixando de lado, por enquanto, a praga dos ratos, o drama de Hugo e toda a trajetória de Amicia, o jogo nos leva para a Grécia, 15 anos antes dos acontecimentos de Requiem. Agora assumimos o controle de Sophia, a contrabandista que ajudou Hugo e Amicia no título anterior. Aos 22 anos, ela explora a ilha de Creta em busca da mítica ilha do Minotauro e de respostas sobre as origens da Mácula. Mas existe algo muito mais pessoal nessa jornada. O pai de Sophia a salvou do convento quando ela ainda era jovem. Algum tempo depois, porém, ele partiu em uma missão e nunca retornou. Essa ausência deixou um vazio enorme em Sophia, e acho que o jogo consegue transmitir muito bem como essa perda continua influenciando suas escolhas e sua personalidade.

Sophia é teimosa, obstinada e extremamente leal às pessoas que ama. Ao mesmo tempo, é curiosa, impulsiva e carismática. E o jogo não demora para mostrar que sua jornada não será fácil. São tantas perdas e situações difíceis logo no início que, sinceramente, em determinados momentos dá vontade de simplesmente abraçar a personagem e falar: “Calma, Sophia, vai ficar tudo bem.” Mesmo sabendo que provavelmente não vai. É muito fácil se apegar a ela. Durante minha experiência, eu senti as dores dela, consegui entender suas dúvidas e comecei a compartilhar da necessidade de descobrir o motivo por trás de suas visões e, principalmente, qual é o propósito delas em sua existência.

Uma das coisas que mais me chamou atenção foi perceber que a Asobo Studio não teve medo de mexer na fórmula. Os jogos anteriores tinham uma relação muito forte com furtividade, vulnerabilidade e sobrevivência. Resonance: A Plague Tale Legacy, por outro lado, coloca Sophia em uma posição muito mais ofensiva. Ela é uma personagem fisicamente mais preparada e capaz de enfrentar seus inimigos de maneira direta. O combate possui ataques fortes e fracos, bloqueios, esquivas e finalizações, criando um sistema muito mais dinâmico e funcional. A mudança não parece gratuita: ela conversa diretamente com a personalidade da Sophia e com a proposta dessa nova aventura, é como se a Asobo ratificando “Nós já contamos a história de Amicia e Hugo. Agora vamos mostrar outro lado desse mesmo universo.” E eu acho que foi uma decisão muito acertada.

Uma outra coisa que gostei em Resonance é a maneira como a história é contada. O jogo não simplesmente joga todas as respostas na sua frente, ele vai construindo o conhecimento aos poucos, por meio de pinturas, ruínas, inscrições, objetos, arquitetura e uma quantidade enorme de informações espalhadas pelo cenário, ou simplesmente pelas visões de Sophia. A cada nova descoberta, uma peça parece se encaixar em um quebra-cabeça ainda maior. O jogo vai dissecando sua narrativa conforme avançamos, misturando cultura, mitologia, mistério e conhecimento histórico de uma maneira muito interessante e perspicaz. A própria ambientação faz essa mistura entre diferentes períodos e ideias funcionar. A aventura transita entre a realidade de Sophia e elementos ligados à antiga civilização minoica, criando uma identidade completamente diferente daquela que conhecíamos nos jogos anteriores. Não estamos apenas andando do ponto A para o ponto B. Existe uma vontade genuína de observar os ambientes, procurar respostas e entender o significado daquele lugar.

E os puzzles… meu Deus. Aqui preciso fazer uma confissão. Os puzzles possuem um nível de complexidade consideravelmente elevado. Em diversos momentos fiquei alguns bons minutos parado, olhando para o cenário e tentando entender o que exatamente o jogo queria que eu fizesse. E teve um determinado puzzle em que eu simplesmente TRAVEI. Fiquei horas pensando, testando possibilidades, observando cada detalhe… até que precisei recorrer à minha sobrinha de 12 anos e ela olhou para o puzzle, pensou por aproximadamente três segundos e resolveu! Três. Segundos. Naquele momento eu não me senti um tio. Eu me senti um NPC esperando alguém apertar o botão de interação e me dar algum protagonismo. Honestamente, eu não me senti derrotado pelo puzzle. Eu me senti derrotado por uma criança que ainda depende dos meus comandos pra tomar banho. Foi uma experiência humilhante, mas pelo menos descobri que minha sobrinha tem futuro na engenharia de puzzles. Mas, brincadeiras à parte, considero essa uma das grandes qualidades do jogo.

Existe muita criatividade e engenhosidade na maneira como as provações são construídas. A arquitetura dos cenários é pensada especificamente para que os mecanismos, objetos e soluções façam sentido dentro daquele espaço. A utilização de luz e dos aparatos minoicos para solucionar os enigmas cria situações visualmente impressionantes e exige que o jogador observe o ambiente com atenção. É impressionante observar como as fases são projetadas e como cada elemento possui uma função. Existe uma qualidade técnica absurda na construção desses ambientes, com uma preocupação enorme em fazer com que tudo pareça plausível e funcional.

O combate também passa por uma transformação interessante. Diferentemente da furtividade muito presente nos jogos anteriores, aqui Sophia pode entrar diretamente na bagaceira e ativar o modo Rambo. O sistema oferece ataques fortes e fracos, esquivas, bloqueios e finalizações, além do uso de lâminas e combate corporal. Tudo funciona de maneira bastante responsiva, com um ritmo mais frenético. Gostei bastante dessa mudança porque ela combina com o perfil da Sophia. O combate parece menos preocupado em fazer você se esconder e mais interessado em colocar a personagem diante do perigo e fazer com que ela reaja. É um sistema simples, mas funcional, dinâmico e muito agradável de controlar.

Visualmente, o jogo é simplesmente maravilhoso. A direção de arte abandona boa parte daquele espectro mais gótico e sombrio dos antecessores e aposta em uma paleta muito mais viva. A Grécia ganha cores, luz, vegetação, construções e paisagens que tornam a exploração extremamente agradável. Os gráficos estão lindos, mas o que realmente chama atenção é a direção de arte como um todo: iluminação, texturas, arquitetura e composição dos cenários trabalham juntos para criar ambientes extremamente convincentes. A arquitetura e a engenharia dos aparatos dos puzzles parecem pertencer àquele mundo, em vez de simplesmente serem mecanismos colocados ali para criar desafios. Em diversos momentos me peguei simplesmente parando para contemplar o cenário e de fato entendê-los. E isso também acontece por causa da trilha sonora. A trilha é excelente, assim como toda a sonorização. O trabalho do compositor Olivier Derivière, que retorna para acompanhar a franquia, contribui diretamente para essa atmosfera de mistério, aventura e descoberta. Algumas vezes simplesmente fiquei andando pelo cenário enquanto uma música tocava, aproveitando aquele momento. Resonance: A Plague Tale Legacy é um daqueles jogos em que você percebe que existe muito cuidado em cada camada da experiência.

O sistema de evolução através dos pontos de ressonância também merece destaque. A ideia de encontrar esses pontos espalhados pelo mapa ou conquistá-los depois de determinados confrontos cria uma espécie de recompensa constante durante a exploração. Você começa a olhar para cada canto do cenário pensando: Será que tem um pontinho de ressonância dando sopa por ali? E isso cria um incentivo muito interessante para explorar e, ao mesmo tempo, estabelece uma progressão que não parece completamente artificial.

Resonance: A Plague Tale Legacy é uma excelente expansão desse universo e consegue fazer algo importante: não depender exclusivamente da história que já conhecemos para justificar sua existência. Sophia possui identidade própria e deixa isso muito claro durante sua jornada. Sua personalidade, suas perdas, suas dúvidas e suas visões fazem com que seja muito fácil se importar com o caminho que ela está percorrendo. E a forma como o jogo mistura mistério, cultura, mitologia e exploração cria uma aventura que constantemente desperta curiosidade. Também acho importante reconhecer o trabalho da Asobo Studio e da Focus Entertainment. A parceria entre as duas empresas novamente demonstra que existe uma compreensão muito clara sobre o que torna A Plague Tale tão especial, ao mesmo tempo em que existe coragem para experimentar. Resonance muda a protagonista, muda o cenário, muda o tom visual e amplia consideravelmente o espaço dado ao combate, sem abandonar a identidade narrativa da franquia. Tecnicamente, é um trabalho belíssimo. Os gráficos estão lindos, a direção de arte é fabulosa, a trilha sonora e a sonorização são excelentes e o combate é funcional, responsivo e dinâmico.

Mas, acima de tudo, é um jogo que recompensa a curiosidade. Você explora porque quer descobrir. Resolve puzzles porque quer entender o mecanismo de verdade. Avança porque quer saber o que aconteceu com Sophia e qual é o verdadeiro significado de tudo aquilo. No fim, o que mais ficou comigo foi justamente isso: eu queria saber o que estava acontecendo. E, para mim, quando um jogo consegue despertar essa curiosidade, já fez muita coisa certa. Uma aventura visualmente magnífica, narrativamente envolvente e cheia de puzzles capazes de colocar até um adulto formado em situação de constrangimento diante de uma criança de 12 anos. E, sinceramente, depois dessa experiência, acho que a Lara, minha sobrinha, merece um crédito como consultora técnica da minha próxima análise.

Veredito Gamers & Games:

Nota Final
9.6
/ 10

“Resonance: A Plague Tale Legacy se destaca pela excelente protagonista, puzzles criativos, combate dinâmico e uma direção de arte impressionante. A mudança de fórmula funciona muito bem e cria uma aventura envolvente, embora alguns puzzles apresentem uma curva de raciocínio irregular.”

Resonance: A Plague Tale Legacy

9.6

Nota

9.6/10

Positivos

  • Direção de arte
  • Puzzles
  • História
  • Protagonista

Negativos

  • Curva de raciocínio irregular (puzzles complexos)

Thiago Richeliê

Um otimista cauteloso que sofre influências da desastrosa Lei de Murphy! Fisioterapeuta, amante de Games, o louco das Séries, apaixonado por Filmes e que chora ouvindo Músicas.
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